domingo, 19 de maio de 2019

“- Como pode este Jesus nos oferecer a sua carne para comermos?”





“- Como pode este Jesus nos oferecer a sua carne para comermos?” (João 6, 52)

Com esta pergunta, os judeus apresentavam-se diante de Jesus quando Dele ouviram o seguinte:
- Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Se alguém comer deste pão, viverá para sempre. Este pão é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo”.(João 6, 51)

A pergunta dos judeus ainda hoje é feita pelas pessoas do nosso tempo. Diante da Eucaristia, verdadeira carne e sangue de Jesus, apresenta-se muito além do que é possível crer, diante do pão e do vinho que em nada se altera visivelmente aos olhos humanos.

Sim, com facilidade, fala-se de um ditado chinês ou mesmo do que o horóscopo tem para dizer conforme o signo do zodíaco. Mas quando se fala da Bíblia, ou de qualquer outro tema cristão, especialmente conceitos católicos, há toda uma questão de dúvida que tem se colocar, porque nestes tempos não se deve estar apegado a estas crenças tão antigas, não fossem aquelas, muito mais supersticiosas,  do que baseadas em uma história real e concreta como o foi a vida da Jesus Cristo.

Por isso, não me surpreende que no tempo de Jesus, igualmente se tenha colocado em questão que um simples pão e vinho apresentem-se como verdadeira carne e sangue de Cristo.

A superstição cada vez mais impera no nosso tempo, e por isso, ainda hoje, a Eucaristia interroga e constrange muita gente. E a pergunta dos judeus tem continuado ao longo dos tempos, havendo até várias igrejas cristãs que acreditam em Jesus mas não acreditam e nem têm a Eucaristia.

Realmente, na nossa mente lógica, é difícil perceber isto de corpo e sangue de Cristo.

“Jesus lhes disse: “Eu digo a verdade: Se vocês não comerem a carne do Filho do homem e não beberem o seu sangue, não terão vida em si mesmos. Todo aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida.” (João 6, 53-55)

Desde a minha primeira comunhão, sinto que algo mais que pão entra na minha boca. No momento em que recebo a Eucaristia, uma força e paz interior envolve-me inteiramente. Desde cedo, percebia sem explicação racional, como tal momento da comunhão do Corpo e Sangue de Cristo é e sempre me foi tão intenso. 

Claro que houve quem me dissesse que a hóstia era apenas trigo, e então após esta constatação, ainda mais não percebia porque tal momento em que comungava era tão intenso.

"Os sinais essenciais do sacramento eucarístico são o pão de trigo e o vinho da videira, sobre os quais é invocada a bênção do Espírito Santo, e o sacerdote pronuncia as palavras da consagração ditas por Jesus durante a última ceia: «Isto é o meu corpo, que será entregue por vós... Este é o cálice do meu sangue...»." (Catecismo da Igreja Católica, nº 1412)

“Todo aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele.” (João 6, 56)

Quando ouço estas palavras ditas pelo próprio Jesus, apercebo-me que é exatamente isso que sinto, quando comungo. Sinto a presença de Jesus em mim e neste momento tão pessoal e íntimo, converso com Ele de forma bem próxima.

“A sagrada Comunhão do corpo e sangue de Cristo aumenta a união do comungante com o Senhor perdoa-lhe os pecados veniais e preserva-o dos pecados graves. E uma vez que os laços da caridade entre o comungante e Cristo são reforçados, a recepção deste sacramento reforça a unidade da Igreja, corpo Místico de Cristo.” (Catecismo da Igreja Católica, nº 1416)

Após comungar, por algum tempo, não tenho realmente vontade de comer pois sinto que a presença de Jesus me sacia inteiramente.

“Este é o pão que desceu dos céus. Os antepassados de vocês comeram o maná e morreram, mas aquele que se alimenta deste pão viverá para sempre”. (João 6, 58)


Alexandrina de Balazar, a partir do dia 27 de Março de 1942, viveu treze anos em jejum e anúria. O seu alimento foi exclusivamente a Eucaristia.

“Jesus declara-lhe «Não te alimentarás jamais na terra. O teu alimento é a Minha Carne; o teu sangue é o Meu Divino Sangue; a tua vida é a Minha vida, de Mim a recebes, quando te bafejo e acalento, quando uno ao teu o Meu Coração. Não quero que uses medicina, a não ser aquela a que não possas atribuir alimentação. Esta ordem é para o teu médico; será ele que toma a tua defesa. É grande milagre da tua vida.» (Sentimentos da Alma; 07/12/1946)

Um ano depois de Alexandrina ter começado o seu Jejum e anúria completo, em 1943, foi levada ao Hospital “Refúgio da Paralisia Infantil”, na Foz do Douro, onde ficou internada por quarenta dias para ser rigorosamente observada. Eis o relatório médico:

«É para nós inteiramente certo que, durante os quarenta dias de internamento, a doente não comeu nem bebeu; não urinou nem defecou, e esta circunstância leva-nos a crer que tais fenómenos possam vir a produzir-se de tempos anteriores.”

No dia 25 de abril de 2004, Alexandrina Maria da Costa foi beatificada em Roma pelo Papa S. João Paulo II. A partir desta data, tornou-se beata da Igreja universal.

Penso que a Beata Alexandrina de Balazar revelou em seu próprio corpo, o que a Eucaristia, corpo e sangue de Jesus opera no nosso corpo biológico. As palavras de Jesus mostram-se reais neste caso tão próximo aos nossos tempos e sem uma resposta científica que o possa justificar.

“Declarou-lhes Jesus: “Digo a verdade: Não foi Moisés quem deu a vocês pão do céu, mas é meu Pai quem dá a vocês o verdadeiro pão do céu. Pois o pão de Deus é aquele que desceu do céu e dá vida ao mundo”. Disseram eles: “Senhor, dá-nos sempre desse pão!” Então Jesus declarou: “Eu sou o pão da vida. Aquele que vem a mim nunca terá fome; aquele que crê em mim nunca terá sede.” (João 6, 32 -35)

Penso que estes sinais visíveis no mundo, são pequenas mechas de luz que Deus derrama na humanidade para demonstrar a verdade das palavras de Jesus.

Para além destes sinais na própria vida dos santos, também por todo o mundo existem milagres eucarísticos, alguns deles que impressionam pela sua precisão e especificidade, como se Deus preparasse para cada momento da história da humanidade, o sinal visível mais adequado às limitações causadas pela incredulidade humana, com o progresso científico.

Deixo ao fim deste texto, um link onde poderá conhecer mais em pormenor o que são estes milagres eucarísticos e como eles começaram no artigo intitulado: Milagres Eucarísticos: o que são e como começaram?

Mas por que Deus nos dá estes sinais?

“Mas, como eu disse, vocês me viram, mas ainda não creem. Todo aquele que o Pai me der virá a mim, e quem vier a mim eu jamais rejeitarei. Pois desci dos céus, não para fazer a minha vontade, mas para fazer a vontade daquele que me enviou. E esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não perca nenhum dos que ele me deu, mas os ressuscite no último dia. Porque a vontade de meu Pai é que todo aquele que olhar para o Filho e nele crer tenha a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia”. (João 6, 36-40)

Deus nos ama tanto que deixou esta presença real de Jesus para que não nos percamos nas distrações do mundo e nem nos esqueçamos da nossa essência como criatura de Deus.

O modo da presença de Cristo sob as espécies eucarísticas é único. Ele eleva a Eucaristia acima de todos os sacramentos e faz dela «como que a perfeição da vida espiritual e o fim para que tendem todos os sacramentos» (São Tomás de Aquino, Summa theologiae 3, q. 73, a. 3, c: Ed. Leon. 12, 140.). 

"No santíssimo sacramento da Eucaristia estão «contidos, verdadeira, real e substancialmente, o corpo e o sangue, conjuntamente com a alma e a divindade de nosso Senhor Jesus Cristo e, por conseguinte, Cristo completo» (Concílio de Trento, Sess. 13ª, Decretum de s.s. Eucharistia, can. 1: Ds 1651.). «Esta presença chama-se "real", não a título exclusivo como se as outras presenças não fossem "reais", mas por excelência, porque é substancial, e porque por ela se torna presente Cristo completo, Deus e homem» (Paulo VI, Enc. Mysterium fidei: AAS 57 (1965) 764.)." (Catecismo da Igreja Católica, nº 1374)

Diante das palavras de Jesus tão concretamente explíctas, acerca do seu corpo e sangue estarem no pão que dá a vida, muitos discípulos ficaram confusos e abandonaram Jesus…

“Daquela hora em diante, muitos dos seus discípulos voltaram atrás e deixaram de segui-lo. Jesus perguntou aos Doze: “Vocês também não querem ir?” Simão Pedro lhe respondeu: “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras de vida eterna. Nós cremos e sabemos que és o Santo de Deus”. “(João 6, 66-69)

Ainda nos nossos tempos, muitos e até algumas das religiões cristãs  se escandalizam com estas palavras de Jesus e por isso, não aceitam a Eucaristia como corpo e sangue de Jesus, pois tais palavras são realmente “duras” à nossa racionalidade humana.

Ao ler os versículos anteriores do mesmo capítulo do Evangelho de São João, Jesus, antes de falar abertamente acerca deste “Pão da vida” que seria o seu próprio “corpo e sangue”, manifestou-se com alguns sinais que efetivamente vão para além da nossa racionalidade e limitação humana: Jesus faz a multiplicação dos pães e Jesus anda sobre as águas.

Nestes dois milagres, Jesus demonstra que Deus pode tudo, vence a limitação material e também a limitação humana. Se Deus multiplica alguns pães para saciar a multidão ou se anda sobre as águas para vir ter com os seus discípulos, então nada poderá deter a Vontade de Deus e a forma da sua ação no mundo, ainda mais que este mundo foi criado por Ele.

A Eucaristia é esta pérola de Deus, em que a cruz de Jesus é um sacrifício presente e atual em todas as missas que foram, que são ou serão celebradas até o fim dos tempos. Não nos iludamos que a missa é apenas mais uma celebração de encontro com Deus. Na verdade, o próprio Deus vem ao nosso encontro e espera por nós a cada celebração eucarística.

Deus quer estar conosco, da forma divina e eterna, fazendo-nos provar uma pequena gota do que nos espera, quando estivermos na Sua Presença.

O mundo visível dos sentidos, um dia, quer queiramos ou não, acabará. Mas esta eternidade de Deus, que Cristo nos trouxe, não tem tempo, nem se limita materialmente. A Eucaristia é esta gota de eternidade que Deus nos dá a provar a cada celebração Eucarística.  

Termino com esta profunda oração que o Padre Pio compôs para rezá-la depois de receber a Sagrada Comunhão, cujo o vídeo pode ser visto e ouvido neste link. Nesta oração, Padre Pio demonstra a fé na presença de Jesus na Santa Eucaristia e o seu desejo de que Jesus permanecesse para sempre em seu coração:

"Permanecei, Senhor, comigo, porque é necessária a Vossa presença para não Vos esquecer; sabeis quão facilmente Vos abandono.
Permanecei, Senhor, comigo, pois sou fraco e preciso da Vossa força para não cair tantas vezes;porque Vós sois a minha luz e sem Vós estou nas trevas;pois Vós sois a minha vida e sem Vós esmoreço no fervor;para me dares a conhecer a Vossa vontade;para que ouça a Vossa voz e Vos siga;pois desejo amar-Vos muito e estar sempre em Vossa companhia.Permanecei, Senhor, comigo, se quereis que Vos seja fiel.Permanecei, Senhor, comigo, porque, por mais pobre que seja minha alma, deseja ser para Vós um lugar de consolação e um ninho de amor.Permanecei, Jesus, comigo, pois é tarde e o dia declina… Isto é, a vida passa, a morte, o juízo, a eternidade se aproximam e é preciso refazer minhas forças para não me demorar no caminho, e para isso tenho necessidade de Vós.Já é tarde e a morte se aproxima. Temo as trevas, as tentações, a aridez, a cruz, os sofrimentos, e quanta necessidade tenho de Vós, meu Jesus, nesta noite de exílio.Permanecei, Jesus, comigo, porque nesta noite da vida, de perigos, preciso de Vós. Fazei que, como Vossos discípulos, Vos reconheça na fração do pão, isto é, que a comunhão eucarística seja a luz que dissipe as trevas, a força que me sustente e a única alegria do meu coração.Permanecei, Senhor, comigo, porque na hora da morte quero ficar unido a Vós, senão pela comunhão, ao menos pela graça e pelo amor.Permanecei, Jesus, comigo, não Vos peço consolações divinas porque não as mereço, mas o dom de Vossa presença, assim, Vo-lo peço.Permanecei, Senhor, comigo, é só a Vós que procuro, Vosso amor, Vossa graça, Vossa vontade, Vosso coração, Vosso Espírito, porque Vos amo e não peço outra recompensa senão amar-Vos mais. Com um amor firme, prático, amar-Vos de todo o meu coração na terra para continuar a Vos amar perfeitamente por toda a eternidade. Amém. "
(Texto de autoria de Rosária Grácio)



A vida de Alexandrina Balazar, o seu jejum e anúria, podem ser melhor conhecidos no site:

Neste artigo do site Padre Paulo Ricardo poderá conhecer melhor sobre os milagres Eucarísticos e como começaram:


 Os textos do Catecismo da Igreja Católica foram retirados do site:

O vídeo da oração do Padre Pio pode ser visto neste link:








domingo, 21 de abril de 2019

Qual é a minha pedra a ser removida, como se chama esta pedra?




Acompanhava a Santa Vigília Pascal pela televisão, quando o Papa Francisco em sua homilia, faz-me esta pergunta que indaga-me sobre as pedras com que me deparo no meu caminho… 

Qual é a minha pedra a ser removida, como se chama esta pedra?

Não é uma pergunta que possa oferecer soluções, mas certamente faz-nos confrontar e nomear as pedras que dizemos ter no nosso caminho.

“Muitas vezes, a esperança é obstruída pela pedra da falta de confiança. Quando se dá espaço à ideia de que tudo corre mal e que sempre vai de mal a pior, resignados, chegamos a crer que a morte seja mais forte que a vida e tornamo-nos cínicos e sarcásticos, portadores dum desânimo doentio. Pedra sobre pedra, construímos dentro de nós um monumento à insatisfação, o sepulcro da esperança. Lamentando-nos da vida, tornamos a vida dependente das lamentações e espiritualmente doente. Insinua-se, assim, uma espécie de psicologia do sepulcro: tudo termina ali, sem esperança de sair vivo. Mas, eis que surge a pergunta desafiadora da Páscoa: Porque buscais o Vivente entre os mortos? O Senhor não habita na resignação. Ressuscitou, não está lá; não O procures, onde nunca O encontrarás: não é Deus dos mortos, mas dos vivos (cf. Mt 22, 32). Não sepultes a esperança!” (Homilia do Papa Francisco na Vigília Pascal de 20 de abril de 2019)


Hoje quando abri a porta da minha casa à Visita Pascal e beijei a cruz senti-me abençoada por tantas graças que recebi ao longo da minha vida. Num segundo percebi que tantas e tantas vezes, julgava que tudo estava prestes a acabar e, no entanto, eis a ressurreição, o túmulo vazio onde a morte é vencida.

Nos últimos meses perdi pessoas muito queridas, amigas que me acompanharam nos últimos tempos, pessoas que viveram uma vida cheia de lutas e tantas pedras que quase as esmagaram.

“Ainda que atravesse vales tenebrosos, de nenhum mal terei medo porque Tu estás comigo. A tua vara e o teu cajado dão-me confiança.” (Salmos 23,4)


A vida, por vezes nos confronta com a nossa fragilidade, de que nada somos, e que por instante, ficamos sem nada, despidos de tudo que julgávamos ter.

Quando Jesus foi crucificado, Ele estava ali, despido de tudo, suas roupas foram divididas pelos soldados e o seu manto sorteado. No calvário, Jesus mostra-nos o que somos quando a doença e a morte se aproxima.

“Os soldados, depois de terem crucificado Jesus, pegaram na roupa dele e fizeram quatro partes, uma para cada soldado, excepto a túnica. A túnica, toda tecida de uma só peça de alto a baixo, não tinha costuras. Então, os soldados disseram uns aos outros: «Não a rasguemos; tiremo-la à sorte, para ver a quem tocará.» Assim se cumpriu a Escritura, que diz: Repartiram entre eles as minhas vestes e sobre a minha túnica lançaram sortes.” (João 19,23-24)


Este nada é o que a morte e a doença nos traz, quer tenhamos muito ou pouco. Não existe distinção para os que têm muito, porque chegada esta hora, temos de sair desta vida com as mãos vazias.

Porém, quando Maria Madalena vai ao sepulcro onde colocaram o corpo de Jesus, no terceiro dia após a sua morte, eis que se depara com um túmulo vazio…

“No primeiro dia da semana, ao romper da alva, as mulheres foram ao sepulcro, levando os perfumes que haviam preparado. Encontraram removida a pedra da porta do sepulcro e, entrando, não acharam o corpo do Senhor Jesus. Estando elas perplexas com o caso, apareceram-lhes dois homens em trajes resplandecentes. Como estivessem amedrontadas e voltassem o rosto para o chão, eles disseram-lhes: «Porque buscais o Vivente entre os mortos? Não está aqui; ressuscitou! Lembrai-vos de como vos falou, quando ainda estava na Galileia, dizendo que o Filho do Homem havia de ser entregue às mãos dos pecadores, ser crucificado e ressuscitar ao terceiro dia.»”(Lucas 24, 1-7)


“Recordando Jesus, as mulheres deixam o sepulcro. A Páscoa ensina-nos que o crente se detém pouco no cemitério, porque é chamado a caminhar ao encontro do Vivente. Perguntemo-nos: na minha vida, para onde caminho? Sucede às vezes que o nosso pensamento se dirija continua e exclusivamente para os nossos problemas, que nunca faltam, e vamos ter com o Senhor apenas para nos ajudar. Mas, deste modo, são as nossas necessidades que nos orientam, não Jesus.” (Homilia do Papa Francisco na Vigília Pascal de 20 de abril de 2019)

Por vezes, fixamos-nos nos problemas, naquilo que nos mói por dentro… 

Lembro-me de uma parte do filme da  história de Santa Clara de Assis, quando a irmã Cecília, que estava no convento com Santa Clara, retorna após mendigar por comida … Só lhe deram bocados de pão duro para além das pedras que lhe atiraram e dos insultos que recebeu por ir mendigar, sendo ela de família rica e ter deixado tudo para ir para o convento. Enquanto a irmã Cecília chora e queixa-se da injustiça que sofreu, Santa Clara está a lavar-lhe e limpar-lhe os pés com muito amor, beijando-os ternamente. Por momentos, a irmã Cecília assusta-se por ver Santa Clara, na altura, a sua madre superiora a beijar-lhe humildemente os pés, e depois deste ato bíblico, a exemplo de Jesus, toda a queixa esgota-se…
Este momento do filme pode-se ver no minuto 29.21 do filme em

Esta parte do filme faz-me interrogar onde está a minha fé e esperança em Deus, se a cada pedra que me atiram, deixo-me curvar ou queixo-me amargamente?

Aconselho que vejam não só esta parte mas todo este filme sobre a santa Clara de Assis que nos propõe, que a vida em seu "tudo" ou em seu "nada" diante do nosso amor a Deus, especialmente quando se ama a Deus nos que nos estão próximos, o "nada" e o "tudo" ficam apenas dependente desse amor.

Jesus Ressuscitou e as pedras que me sepultam precisam ser retiradas, especialmente as que me podem matar para sempre:
  
“A Páscoa, irmãos e irmãs, é a festa da remoção das pedras. Deus remove as pedras mais duras, contra as quais vão embater esperanças e expetativas: a morte, o pecado, o medo, o mundanismo.  A história humana não acaba frente a uma pedra sepulcral, já que hoje mesmo descobre a «pedra viva» (cf. 1 Ped 2, 4): Jesus ressuscitado.” (Homilia do Papa Francisco na Vigília Pascal de 20 de abril de 2019)


Bibliografia:
Homilia do Papa Francisco na Vigília Pascal de 20/04/2019:

As passagens bíblicas foram retiradas do site:
capuchinhos.org/

Texto e fotos de autoria de Rosária Grácio

Pinturas de Gráccio Caetano
www.gracciocaetano.com
gracciocaetano.blogspot.pt




sábado, 15 de dezembro de 2018

Viver o Advento – Aprender com as pedras da vida




Ao final de cada ano somos bombardeados com imensa publicidade sobre o Natal, com suas facetas comerciais e publicitárias. As lojas aproveitam esta época para fazer uma chuva de promoções, incentivando a venda do seu stock, iluminando as suas montras e invocando valores sociais como a família, o amor, e até mesmo a solidariedade para chamar a atenção dos compradores.

Sinceramente, a cada ano, julgo que se vive cada vez menos o Natal.

Cada vez mais, o Natal, na sua essência se perde para dar lugar a uma festa como as outras, num profundo vazio material.

“Mostra-me, SENHOR, os teus caminhos e ensina-me as tuas veredas. Dirige-me na tua verdade e ensina-me, porque Tu és o Deus meu salvador. Em ti confio sempre.” (Salmo 25,4-5)

No entanto, sabiamente a Igreja católica antecede o Natal com um tempo propício à reflexão chamado de Advento.

“Devemos perguntarmo-nos:  o que quer dizer vinda do Senhor? Em grego é "parusia", em latim "adventus":  "advento", "vinda". O que é esta vinda? Envolve-nos ou não?” (Papa Bento XVI - 26 de Novembro de 2005)
  

Nos últimos meses tenho tido obras em casa. E as obras em casa são um pouco como as obras em nosso espírito. Durante a sua execução, muito lixo fica pelo caminho, sem falar nas pedras que foram o resultado de demolições e reparações que foram feitas para refazer e remodelar os espaços. Por causa disso, para manter as coisas minimamente limpas, sempre que vejo uma pedra no chão, retiro-a para ir limpando os caminhos por onde passo no quintal.

Esta atividade de limpar as pedras do caminho fizeram-me refletir sobre as pedras que também encontrei no meu caminho de vida.

As pedras que caiem no chão, atiradas por alguém ou simplesmente porque caiem quando as paredes são demolidas ou remodeladas.

Por vezes, nem sempre os obstáculos são limitações, antes, podem ser degraus de subida, patamares que nunca descobríamos se ficássemos ali parados a ver as pedras a acumularem-se à nossa frente.

Então comecei a usar estas pedras que apareciam aqui e ali no meu quintal, para ir construindo um presépio ao ar livre. Ali mesmo no quintal onde as pedras pareciam estar a mais, fui colocando pedra sobre pedra, moldando uma pequena gruta onde iria colocar o meu presépio.


Penso que toda esta ciência de juntar e de fazer das pedras de tropeço, um alicerce seguro, já vem de Jesus quando disse:

“Não lestes esta passagem da Escritura: A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular. Tudo isto é obra do Senhor e é admirável aos nossos olhos?»" (Marcos 12, 10-11)

Por isso, não rejeitei estas pedras que aqui e ali foram invadindo a minha vida. Tenho de aprender com estas pedras, refazer com elas, um novo caminho, uma nova habitação onde possa morar ainda mais perto de Deus.

Há uma passagem bíblica bem mais anterior do tempo de Jesus que me deu ainda mais o que pensar sobre o que uma simples pedra pode nos fazer refletir, agir e prosseguir. Falo da passagem do Antigo Testamento em que Jacó tem um sonho quando deita a sua cabeça sobre uma pedra:

“Jacob saiu de Bercheba e tomou o caminho de Haran. Chegou a determinado sítio e resolveu ali passar a noite, porque o sol já se tinha posto. Serviu-se de uma das pedras do lugar como travesseiro e deitou-se. Teve um sonho: viu uma escada apoiada na terra, cuja extremidade tocava o céu; e, ao longo desta escada, subiam e desciam mensageiros de Deus. Por cima dela estava o SENHOR, que lhe disse: «Eu sou o SENHOR, o Deus de Abraão, teu pai, e o Deus de Isaac. Esta terra, na qual te deitaste, dar-ta-ei, assim como à tua posteridade. A tua posteridade será tão numerosa como o pó da terra; estender-te-ás para o ocidente, para o oriente, para o norte e para o sul, e todas as famílias da Terra serão abençoadas em ti e na tua descendência. Estou contigo e proteger-te-ei para onde quer que vás e reconduzir-te-ei a esta terra, pois não te abandonarei antes de fazer o que te prometi.» Despertando do sono, Jacob exclamou: «O SENHOR está realmente neste lugar e eu não o sabia!» Atemorizado, acrescentou: «Que terrível é este lugar! Aqui é a casa de Deus, aqui é a porta do céu.» No dia seguinte de manhã, Jacob agarrou na pedra que lhe servira de travesseiro e, depois de a erguer como um monumento, derramou óleo sobre ela. Chamou a este sítio Betel, quando, originariamente, a cidade se chamava Luz. Jacob fez, então, o seguinte voto: «Se Deus estiver comigo, se me proteger durante esta viagem, se me der pão para comer e roupa para vestir, e se eu regressar em paz à casa do meu pai, o SENHOR será o meu Deus. E esta pedra, que eu erigi à maneira de monumento, será para mim casa de Deus, e pagarei o dízimo de tudo quanto Ele me conceder.» (Gênesis 28,10-22)


Para perceber-se um pouco da história de Jacó no momento desta passagem bíblica, tratava-se do momento mais crítico e difícil da vida dele. Estava ele em fuga, porque o seu irmão queria mata-lo. Jacó estava longe da sua terra e do conforto da sua casa paterna. E por isso, teve de dormir ao relento, encostando a cabeça numa pedra fria e dura para dormir e descansar na sua viagem de exílio.

Mesmo assim, a sua fé inabalável fez-lhe fazer uma promessa de Ação de Graças e usar aquela pedra para erguer ali um monumento que seria a casa de Deus.

Por isso, a Palavra de Deus me fortalece. Não devo temer as pedras da vida, nem devo me afastar da cruz de cada dia, antes devo leva-la como quem leva uma dádiva de Deus.

E assim estou a construir este presépio, vivendo este tempo de Advento,  sem buscar as luzes e as músicas, apenas o Cristo e o seu amor.

“A palavra latina "adventus" refere-se à vinda de Cristo e põe em primeiro plano o movimento de Deus rumo à humanidade, ao qual cada um está chamado a responder com a abertura, a expectativa, a busca e a adesão. E como Deus é soberanamente livre ao revelar-se e ao doar-se, porque é movido unicamente pelo amor, assim também a pessoa humana tem liberdade ao dar o seu consentimento, que é um dever:  Deus espera uma resposta de amor.” (Papa Bento XVI - 4 de Dezembro de 2005)


(Texto de Rosária Grácio)

As palavras bíblicas foram consultadas em 

As palavras do Papa Bento XVI, agora Papa Emérito, foram consultadas em:




Convido-lhe a ver a série de vídeos do meu canal do YouTube que são reflexões para cada semana do Advento em:

Oração da Segunda Semana do Advento





Oração da Segunda Semana do Advento

Está a chegar o dia em que Jesus nasce no coração humano.

Sim, eu sei que o Natal é todos os dias quando quero ser de Deus.

Mas para ser de Deus, preciso avançar por entre as pedras do caminho, por entre as minhas preocupações e limitações diárias, na fé, esperança e caridade.

A fé é fazer destas pedras da indiferença, da deceção, desilusão e contrariedades, um novo caminho de quem espera em Ti, Senhor.

A esperança de usar estas pedras, que antes me impediam de caminhar, erguendo-as, moldando-as em um espaço dedicado a ti Senhor, onde possa ficar Contigo para dedicar-me mais à oração e à meditação da Palavra de Deus.

A caridade de não me fechar no egoísmo do que tenho, partilhando com os que estão ao meu lado ou precisam de mim, as graças que recebo de Ti.

Jesus disse que o perfeito e maior mandamento é amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a mim mesmo.

Só assim, poderei construir um santuário em meu coração, dedicado cada vez mais a Ti, Senhor.

Não posso, Senhor, continuar, sem a tua presença. Tudo me leva a Ti. Nada mais há de eterno nesta vida senão o que vem de Deus.
Nesta segunda semana do Advento, preparo-me ainda mais um pouco para receber-te. Abro a porta do meu coração para ouvir a tua Palavra, construindo com a minha vida,  um presépio vivo, fazendo do meu coração, a simples e humilde manjedoura que aguarda a Tua Chegada.

“Neste tempo do Advento, somos chamados a ampliar o horizonte do nosso coração, a nos deixarmos surpreender pela vida que se apresenta a cada dia com suas novidades”. (Papa Francisco, 27/11/2016)

Oração e Narração de Rosária Grácio

Frase do Papa Francisco consultada em
www.acidigital.com/noticias/papa-francisco-o-advento-e-um-convite-a-se-deixar-surpreender-pelo-senhor


Música: YouTube Audio Library

Fotos: Presépio de Rosária Grácio – 2018
Presépio da Igreja de Fânzeres – 2018
Fotos de temas diversos de Rosária Grácio

Pintura do Sagrado Coração de Jesus sobre azulejo
Original de  Gráccio Caetano


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sábado, 8 de dezembro de 2018

Oração da Primeira Semana do Advento




Oração da Primeira Semana do Advento

Senhor, a nossa vida é feita de caminhos, opções e vontades.

Porém, nem sempre nos caminhos encontramos terrenos planos, direitos, assertivos, fáceis e constantes.

Senhor, quantas pedras estão em nosso caminho que nos impedem de prosseguir, que nos afastam do que realmente somos, do que realmente sonhastes para nós desde quando ainda estávamos no ventre materno.

Maiores ou menores, estas pedras que vão aparecendo no nosso caminho, lá estão a ofuscar os horizontes, a deter os nossos passos, a retirar-nos o ânimo, a interromper os nossos objetivos e a retirar-nos a paz.

Na primeira semana do Advento, acendo esta primeira luz porque só contigo Senhor, posso usar estas pedras da vida para construir e me reconstruir, a partir de dentro de mim mesmo.
Nada do que nos acontece é por acaso, e por isso preciso usar estas mesmas pedras que me embaraçam para me reerguer e crescer na minha humanidade e espiritualidade.

Mas não posso fazer isso sozinho, pois humanamente deixo-me guiar pelos sentidos e neles não se encontra a plenitude do que sou, do que posso ou plenamente me faz feliz.

Preciso fazer com que estas pedras das dores e dificuldades da vida formem um lugar seguro, pois poderão ser um alicerce firme onde o meu coração se abra para Ti Senhor, sem confiar apenas nas minhas forças.

Preciso que nasças em meu coração pois não quero celebrar o Natal que se aproxima apenas de forma material sob a aparência festiva que está muito aquém do que desejas para mim.
E para te ter, meu Senhor, para que nasças em mim, em meu coração, na minha vida, preciso reorganizar os meus sentimentos, estabelecer na minha vontade um tempo para te amar de verdade, um espaço onde a Tua Luz Senhor possa se erguer para iluminar toda a minha vida.

Nesta primeira semana do Advento, me proponho a meditar sobre o que vivo no dia a dia junto aos que me rodeiam, buscando a reconciliação e o perdão, não me focando apenas no mal que me rodeia mas antes no bem que posso fazer e pensar, pois a tua paz Senhor, deve começar por mim.



Oração e Narração de Rosária Grácio

Frase de São João Paulo II consultada em

Conheça outras orações católicas em:

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Solenidade da Imaculada Conceição (Homilia Diária.1025)

domingo, 29 de julho de 2018

Apenas uma gota no oceano...



Uma das passagens bíblicas que mais me emociona e interroga, é a multiplicação dos pães feita por Jesus. Já li inúmeras interpretações acerca desta passagem, algumas delas com um sentido válido para o cristianismo e outras mais ligadas ao humano na sua racionalidade.

Multiplicar pães não é algo materialmente possível na lógica da natureza, e por isso, esta multiplicação do pão só pode ser feita na óptica da fé. Acreditar que um pão se multiplica é acreditar no humanamente impossível.

Este humanamente impossível é exatamente a fonte de muitas interrogações humanas, até mesmo em questão de fé e da existência de Deus.

Quando o incêndio devastou na Grécia, nesta passada semana, houve quem perguntasse “-Onde está Deus?”

Seria magnífico que diante de uma atrocidade, Deus aparecesse como super-herói a impedir o mal, especialmente defendendo os justos e inocentes.

O ser humano interroga Deus como uma criança interroga o seu pai, quando cai no chão, e ali o seu pai, mesmo presente, não o impediu de cair.

A criança pensa sempre que os pais tem a obrigação de impedir todo e qualquer mal que lhes aconteça, mesmo que seja a própria criança a por-se em perigo, intencionalmente ou não. Aliás, a noção de perigo para uma criança é algo abstrato, e por isso, sempre sanável. 

E por isso a multiplicação dos pães parece-me vir ao encontro desta desilusão filial.

Nós desejamos um milagre de Deus em nossa vida, que nos liberte, ou pelo menos, impeça que o mal reine.

“Depois disto, Jesus foi para a outra margem do lago da Galileia, ou de Tiberíades. Seguia-o uma grande multidão, porque presenciavam os sinais miraculosos que realizava em favor dos doentes. Jesus subiu ao monte e sentou-se ali com os seus discípulos.” (João 6, 1-3)

Para começar indaguei o “depois disto”. Sim, a meu ver, para um melhor entendimento, a leitura bíblica deve ser lida no seu contexto. Assim sendo, li o capítulo anterior do Evangelho de João.

Neste capítulo nº 5 do Evangelho de São João, fiquei impressionada. Jesus cura um paralítico em dia de sábado, e a partir disso, desenrola-se uma perseguição a Jesus por parte dos Judeus, especialmente os que mais percebiam ou diziam perceber acerca da Lei de Deus. As palavras de Jesus, quando lhes responde, são direcionadas no sentido de lhes dizer que Ele vinha do Pai, porém, os entendidos da lei não O aceitaram.

Então Jesus os convidou a ir às próprias escrituras, de que tinham tanto conhecimento:
“Investigai as Escrituras, dado que julgais ter nelas a vida eterna: são elas que dão testemunho a meu favor. Vós, porém, não quereis vir a mim, para terdes a vida! Eu não ando à procura de receber glória dos homens; a vós já vos conheço, e sei que não há em vós o amor de Deus. Eu vim em nome de meu Pai, e vós não me recebeis; se outro viesse em seu próprio nome, a esse já o receberíeis. Como vos é possível acreditar, se andais à procura da glória uns dos outros, e não procurais a glória que vem do Deus único? Não penseis que Eu vos vou acusar diante do Pai; há quem vos acuse: é Moisés, em quem continuais a pôr a vossa esperança. De facto, se acreditásseis em Moisés, talvez acreditásseis em mim, porque ele escreveu a meu respeito. Mas, se vós não acreditais nos seus escritos, como haveis de acreditar nas minhas palavras?»" (João 5, 39-47)

Foi exatamente toda esta discussão acerca da veracidade da pregação de Jesus que precedeu a multiplicação dos pães.

Não importando a descrença dos judeus mais entendidos nas escrituras, uma multidão continuava a seguir Jesus, especialmente porque Ele curava os doentes.

"Jesus subiu ao monte e sentou-se ali com os seus discípulos. Estava a aproximar-se a Páscoa, a festa dos judeus. Erguendo o olhar e reparando que uma grande multidão viera ter com Ele, Jesus disse então a Filipe: «Onde havemos de comprar pão para esta gente comer?» Dizia isto para o pôr à prova, pois Ele bem sabia o que ia fazer. Filipe respondeu-lhe: «Duzentos denários de pão não chegam para cada um comer um bocadinho.» Disse-lhe um dos seus discípulos, André, irmão de Simão Pedro: «Há aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?» Jesus disse: «Fazei sentar as pessoas.»(João 6, 3-10)

Jesus ergue o olhar, vê a multidão e compreende a sua necessidade e diz: - "Onde havemos de comprar pão para esta gente comer?"

Filipe vê a limitação material e responde: - "«Duzentos denários de pão não chegam para cada um comer um bocadinho.»"(João 6, 3 - 7)

Simão vê a limitação humana quando assim verifica: - "«Há aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?»"

Então, Jesus convida à ação: - "«Fazei sentar as pessoas.»"

Neste diálogo de Jesus com os seus discípulos, toda a fragilidade e limitação humana é descoberta em frases curtas e tão cheias da realidade do nosso quotidiano.

Para começar, o que inicialmente nos impede de dar o primeiro passo é a limitação material. Quantas vezes dizemos que o que temos é infinitamente pouco para resolver os problemas do mundo.

E depois, quando há qualquer coisa que se possa dar, paramos diante da nossa limitação humana, pois julgamos isso muito pouco, e que em nada resolverá o problema que temos a frente de nós.

Também à Santa Madre Teresa de Calcultá, um jornalista também disse que aquilo que ela fazia era pouco… E a madre, em sua humildade, apenas referiu que se o jornalista também o fizesse, seria mais um, e se a esposa dele também o fizesse, já seriam mais dois, e se os filhos do jornalista também o fizessem, então seriam ainda mais pessoas a fazerem o bem.

A questão de um fazer e julgarmos que é pouco, é como aquele que vê um papel no chão, e o joga no lixo. Parece pouco, mas ali, aquele papel já não sujava o chão.

E o bem, assim como o mal, semeia-se, e dá muito fruto. Pois assim como um incêndio gerou tantas mortes em Portugal e na Grécia, também, desde então, fica uma pergunta: - e o que cada um fez para impedir que mais incêndios fossem ateados?

Para além da mão criminosa que os coloca, há também a impunidade, a falta de ações concretas para limpar e vigiar as matas.

Depois, há uma espécie de silêncio quando depois de chorarmos a calamidade, parece que deixamos tudo nas mãos dos outros, e assim continuarmos a nossa vida, cada qual, para o seu lado.

O ser humano gosta da liberdade, e quando tudo corre bem, há que glorificar a sua inteligência e engenho. Porém, há uma tendência infantil em se culpar Deus, quando as coisas não correm melhor.

Durante muitos anos da minha vida, não ouvi falar de incêndios a devastar cidades. Isso parecia uma daquelas calamidades que só aconteciam em lugares pouco desenvolvidos e sem as mínimas condições. 

Porém, a cada ano, isto de incêndios aparecerem mal há um bocado de calor, interrogava-me.

E os incêndios iam evoluindo ao longo dos anos. inicialmente arrasavam florestas inteiras com a sua vida biológica.

Depois, a devastação matava algumas pessoas, incluindo os próprios bombeiros que na frente das chamas lutavam para acabar com os fogos.

Nos últimos anos, o fogo começa a dizimar cidades.

Há aqui um crescente de mal que vai se desenvolvendo, ao longo de anos, sem que houvesse, de forma clara, uma igual adaptação e atenção de todos para um perigo cada vez mais letal.

Por vezes, falta-nos olhar para cima, como fez Jesus. Olhar para a multidão dos acontecimentos que nos rodeia e interpreta-los. 

Não basta chorarmos as vítimas com palavras. Há que agirmos. Mas esta ação não tem de vir apenas de entidades, mas de cada um, em particular. 

É preciso convidar a todos para "sentar", e assim parar diante de algo que não está a correr bem, e juntos encontrar respostas e soluções conjuntas, que incluam todos, não apenas as entidades supostamente designadas para isso.

Então Jesus manda os discípulos fazer sentar toda aquela gente.

Quando sentamos num lugar, ou é para descansar, seja para comer, conversar ou também, porque é necessário pararmos, e em em comunidade falarmos e vermos o que se passa à nossa volta.

Jesus não quer que as pessoas se vão embora para irem, cada qual, tratar de si e dos seus, conforme o que puderem. Jesus olha a multidão, e não teme os mil homens que estão diante de si, esfomeados. 

Jesus pede para que todos se sentem, pois, é preciso resolver ali mesmo, as necessidades e problemas, em comunidade.

Jesus buscava sempre a interação. Ele, como Filho de Deus, não precisava de ninguém. Porém, desde os seus mais tenros anos, não se isolou. Permaneceu com Maria e José, seu pai terreno, aprendendo deste o trabalho de carpinteiro. Depois, quando iniciou a pregação, escolheu entre os que o seguiam, doze apóstolos, com os quais partilhava e aprofundava os temas mais difíceis da fé e sua vivência.

Jesus convida-nos a não nos isolar, a menos que seja para orar, em momentos mais espirituais e de proximidade a Deus.

Por isso, a multiplicação dos pães dá-nos uma proposta ainda mais audaciosa quando Jesus agradece a Deus, tomando os poucos pães e peixes, daquele “rapazito” que deu tudo o que tinha. 

Jesus não fica com os pães e os peixes, mas dá-os para ser distribuído pela multidão.

"Então, Jesus tomou os pães e, tendo dado graças, distribuiu-os pelos que estavam sentados, tal como os peixes, e eles comeram quanto quiseram."(João 6, 11)

Fico realmente curiosa como que alguns pães e peixes dados por um “rapazito” possam ter saciado uma multidão de pessoas.

No entanto, este tal “rapazito” é a tal pessoa que faltava neste diálogo dos discípulos com Jesus.

Do tal “rapazito” não se conhece o nome, nem sabemos se disse alguma coisa quando deu os pães e peixes que tinha.

A única coisa que este desconhecido “rapazito” fez, foi disponibilizar o que tinha.

E perante o pouco que havia, Jesus deu graças a Deus.

E do pouco, houve fartura.

Se calhar, o milagre que houve, para além da multiplicação divina dos pães, também houve a consciência coletiva das cinco mil pessoas, que vendo um rapazito dar tudo o que tinha para o Mestre, também as fez dar, cada qual, o que tinha e que julgava ser tão pouco.

O pouco com Deus torna-se muito, incalculável e para além do cálculo humano.

Sim, eu creio que Jesus podia multiplicar qualquer coisa, e de nenhuma maneira estou aqui a colocar em causa o milagre de Jesus. Acredito em milagres pois já os vi acontecer na minha vida.

Ainda mais, que a multiplicação se deu logo após à incredulidade dos judeus quanto ao seu poder e autoridade. Jesus usa da multiplicação para provar mais uma vez que os doutores da lei estavam errados nos seus julgamentos acerca de Jesus.

Porém, há que fazer uma leitura acerca disto da multidão, não ficar ali, passiva, e ao sentar-se, também cada qual, colocar à disposição dos outros, o que tinha. E isto é um verdadeiro milagre pois Jesus multiplicou os pães, os peixes e também a caridade entre todos.

E ao fim, ainda sobraram cestos de comida…

"Quando se saciaram, disse aos seus discípulos: «Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca». Recolheram-nos, então, e encheram doze cestos de pedaços dos cinco pães de cevada que sobejaram aos que tinham estado a comer. Aquela gente, ao ver o sinal milagroso que Jesus tinha feito, dizia: «Este é realmente o Profeta que devia vir ao mundo!» Por isso, Jesus, sabendo que viriam arrebatá-lo para o fazerem rei, retirou-se de novo, sozinho, para o monte."(João 6, 12-15)

Há uma preocupação de Jesus na recolha de todos os restos, pois nada se deve perder. A má distribuição dos bens pela humanidade, o esbanjamento e o desperdício que se vê em algumas partes do mundo, não serão a causa das injustiças e da pobreza ?

Jesus mais uma vez me interroga com esta preocupação em recolher tudo, e não deixar que mais uma vez, cada qual, queira guardar para si, o que sobrou.

E depois, eis que a multidão, saciada, inclina-se para mais uma tendência humana que tanto se vê ainda nos tempos hodiernos.

O sinal milagroso os fez ver Jesus como “o Profeta que devia vir ao mundo”, e o quiseram fazer “rei”.

Infelizmente, temos esta tendência em dar aos outros a incumbência que cabe a cada um de nós. Fazer os outros "reis" para que eles nos governem, e assim não nos preocuparmos, e cada qual seguir a sua vida sem se importar com os restantes. E se se Jesus fazia milagres, então melhor, pois assim tudo seria bem mais facilitado para todos. Quando algo faltasse, era só pedir ao rei milagroso.

Jesus não veio a este mundo para que os seres humanos o usassem como desculpa para descartar as suas responsabilidades como agentes transformadores da realidade.

Por isso, há uma tendência em desejarmos um deus super-herói, que a cada injustiça ou mal, viesse do céu e assim impedisse as consequências das ações humanas. 

Esquecemos, muitas vezes, que Deus deu-nos a tal liberdade que nos faz ser responsáveis pelo que acontece, seja para o bem ou seja para o mal.

E não se trata apenas de nós mesmos, mas de olharmos para a multidão, que connosco escreve a história humana.

Jesus retirou-se para o monte pois não era isso que queria transmitir com a multiplicação dos pães.

Se virmos bem quais são os protagonistas deste milagre deparo-me com um rapaz desconhecido que entregou tudo o que tinha. E deste tudo, dado sem receio, Jesus multiplicou para o infinitamente incalculável.

A história do mundo é feita assim destas anónimas doações. São as pequenas gotas que enchem o oceano, e este oceano já não seria o mesmo se não fossem estas gotas como dizia a Santa Madre Teresa de Calcutá.

Por isso, Jesus convida-nos a colocar diante dos desafios da humanidade, os nossos poucos pães e peixes, que julgamos ser tão pouco para resolver o que se passa à nossa volta.

Jesus nos convida a sermos esta gota de bem na história da humanidade.

Bibliografia:
As passagens bíblicas foram consultadas em

Deixo aqui alguns artigos que me ajudaram a refletir neste artigo: