quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Felizes os mansos, porque possuirão a terra...




Felizes os mansos, porque possuirão a terra”. (Mateus 5, 5)

Esta bem-aventurança de Jesus embaraça-me porque afinal, nos tempos hodiernos, ser manso diante das exigências deste mundo acarreta-nos a derrota.

Nos negócios, quem não for exigente e persuasivo, acaba por minar os seus empreendimentos pois outros o farão de uma forma ardilosa… 

Diante de um mundo de feroz concorrência como poderei compreender esta frase de Jesus.

Dizem-nos que “dos fracos não reza a história”. Porém a mansidão não é o mesmo que fraqueza.

Ser fraco nas batalhas da vida é o prenúncio de derrota certa.

No entanto, ser manso é algo completamente diferente.

No dicionário encontrei alguns sinónimos da palavra manso:”génio brando; calmo; sossegado, pacífico”…

A mansidão é a virtude dos mansos… E aqui mergulha-se na serenidade, na doçura e na bondade.

Jesus, ensina-me mais uma vez para ouvir as suas palavras com o coração e não com a razão.

Segundo o Catecismo da Igreja Católica, a mansidão é uma das perfeições que o Espírito Santo forma em nós. (Catecismo da Igreja Católica nº 1832)

Jesus, Ele próprio, se denomina manso, com esta frase belíssima que nos cura o coração:

Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.” (São Mateus 11, 28-30)

Jesus se faz manso por nós e convida-me a saborear esta bem-aventurança no coração de forma plena e livre de preconceitos.

A mansidão e a humildade vestem os corações dos maiores santos.

Um exemplo, é São Francisco de Assis cuja a conversão nasceu destas virtudes. 


São Francisco, na sua juventude estava longe de ser um manso e humilde porque desejava os louvores da terra. Buscava a glória nas batalhas e tinha horror a leprosos. No entanto, seu coração foi moldando-se às virtudes do céu num caminhar contínuo em imitar Jesus nas suas palavras e gestos.

Outro exemplo de mansidão, encontramos em Santa Teresa de Lisieux, que nos apresenta um verdadeiro desafio com o seu Caminho pela via da infância espiritual…


Também conhecida como Santa Teresinha do Menino Jesus, esta carmelita descalça francesa do séc. XIX, abandonou-se como criança nas mãos de Jesus. Assim escreveu: “Deus quer que me abandone como uma criança.”

Outra das suas frases revela-me um dos seus desejos: “Quero encontrar maneira de ir par ao Céu por um caminhinho muito direito, muito curto.”

E este "caminhinho muito direito e curto" foi construído num espírito manso que aceitava todas as adversidades do dia-a-dia como pequenas maneiras de manifestar o seu amor a Jesus. 

Santa Teresinha escreveu alguns desses segredos de vida que posteriormente foram editados num livro intitulado: “História de uma alma” que aconselho a todos a lerem.

Na simplicidade e num total abandono a Deus, Santa Teresinha efetivamente traçou um caminho curto e direito ao céu usando a mansidão como uma forma simples e humilde de imitar Jesus.

São Francisco e Santa Teresinha do Menino Jesus são provas vivas de que efetivamente os mansos possuem a terra porque a memória das suas vidas não se esgota ao longo do tempo.

Jesus, igualmente manso, inquieta-nos ainda hoje com as suas palavras porque a verdadeira vitória e honra está em servir a Deus.

Ser manso é ser grato a Deus, porque a serenidade do espírito prova o quão forte é a nossa fé em Deus.

Bibliografia:

Frases de Santa teresinha e pormenores da sua vida foram retirados do site http://www.carmelitas.pt/teresinha/petalas.html

Vida de São Francisco consultado no site:

Passagens bíblicas retiradas do site

O significado da palavra manso foi retirado do site www.infopedia.pt/
manso in Dicionário infopédia da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2017. [consult. 2017-02-22 21:33:50]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/manso

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

“Felizes os que choram, porque serão consolados.”



Felizes os que choram, porque serão consolados.” (Mateus 5, 4)

Esta segunda bem-aventurança consola-me.

Se repetir esta frase várias vezes, sinto que o meu espírito fica realmente consolado. 

Considero esta frase de Jesus como sendo uma das suas frases de cura mais profundas apesar da sua simplicidade.

A simplicidade com que Jesus diz esta frase é a chave que transforma a tristeza em alegria. 

Sim, é verdade. Nada melhor que ouvir esta frase quando estamos a passar grandes dificuldades, sejam corporais ou espirituais.

Faz-me ouvir palavras de gozo e alegria e exultem estes ossos que trituraste. (Salmos 51(50),10)

A tristeza e a alegria acompanham a vida humana. 

Na maioria das vezes, é o choro que nos entra pela porta, quando não se realizam os nossos desejos e vontades. 

Sentir alegria é um prazer que buscamos constantemente.



Mas, afinal, quando é que sentimos o gozo da alegria?

Na nossa vida humana, vivemos numa intensa e ansiosa busca pela alegria.

Toda a publicidade da televisão invoca esta vontade de ser feliz. 

Aliás, todos temos direito a sermos felizes… Pelo menos, este desejo acompanha-nos conforme o momento que vivemos e apesar das conotações que lhe são dadas que variam de pessoa para pessoa …

Porém, esta publicitada alegria funda-se humanamente em coisas materiais. Ter um carro novo ou comprar um vestido da moda… Comer aquela comida exótica ou viajar para tal país…

Enfim, toda a alegria que as propagandas dos meios de comunicação apregoam vestem-se do aparente, do que é visível, do que é percebido aos sentidos…

Mas será que esta é a alegria referida por Jesus nas bem-aventuranças?

Pois Tu dás uma alegria maior ao meu coração do que a daqueles que têm trigo e vinho em abundância. (Salmos 4, 8)

Ao ler o que Jesus fazia e dizia nas palavras bíblicas, apercebo-me de que a alegria tem um contexto mais amplo, para além do material.

Jesus, pela sua vida e condição, não tinha quaisquer motivos humanos para ser feliz.

Nasceu pobre, trabalhou como carpinteiro, umas das profissões mais humildes do seu tempo… E quando começou a pregar a Palavra de Deus, os doutores da Lei e os fariseus o ignoraram e o perseguiram injustamente.

Os apóstolos que O seguiriam, em sua maioria, eram pessoas igualmente pobres e simples. Não são conhecidos bens que lhe pertençam para além da túnica que lhe foi retirada quando foi crucificado na cruz.

Aliás, nos seus momentos mais tristes, foi abandonado por quase todos. 

E apesar disso, ainda aos pés da cruz, preocupa-se com a sua mãe e a entrega aos cuidados do apóstolo João.

Dá-me de novo a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito generoso. (Salmos 51(50), 14)

Jesus era feliz?


Pelas passagens bíblicas, percebo que Jesus era imensamente feliz. 

Só na alegria, é que Ele seria capaz de falar como falava e de curar como Ele curava.

É graças a esta força do Espírito que os filhos de Deus podem dar fruto. Aquele que nos enxertou na verdadeira Vide far-nos-á dar «os frutos do Espírito: caridade, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, auto-domínio» (Gl 5, 22-23). «O Espírito é a nossa vida»: quanto mais renunciarmos a nós próprios (113), mais «caminharemos segundo o Espírito»”(Catecismo da Igreja Católica nº 736)

Pelos frutos, conhece-se a árvore… (Mateus 12, 33)

E Jesus deixou um rastro de grande amor por onde passou.

Tão grande amor e alegria cultivou que mesmo após mais de dois mil anos do seu nascimento, ainda continuamos a falar de Jesus…

E Jesus nesta Bem-aventurança certamente falava desta alegria que emana da força do espírito. Somente assim, pode-se compreender a sua alegria perante tantas contrariedades pelas quais passou.

Tu converteste o meu pranto em festa, tiraste-me o luto e vestiste-me de júbilo.(Salmos 30(29),12)

Jesus vivia a simplicidade da vida humana, ensinando-nos um caminho novo para chegarmos à verdadeira alegria.

Uma verdadeira alegria inunda-se de paz. E apenas na paz, chegamos à alegria no espírito.

A alegria no espírito é superior a toda e qualquer alegria humana.

Mas como chegar a esta alegria no espírito de Deus?

A história de Tobias foi uma das histórias bíblicas que mais me emocionou quando a li. 

No livro bíblico do mesmo nome Tobias, relata-se a história de um homem e de uma mulher que permaneceram fieis a Deus, apesar das dificuldades.

Quando tudo parecia derrubar-se aos pés de Tobias e de Sara, sua mulher, eis que um anjo foi colocado para guiar-lhes o caminho da vitória.

Não poderei neste momento ater-me a contar esta belíssima história que convido todos a ler, mas o que retenho da história de Tobias, é que mesmo na solidão e na derrota a que nos propiciam as vontades humanas, eis que Deus vem em socorro de quem lhe é fiel.


“Louvaram então o Deus do céu, dizendo: «Ben­dito sejas, ó Deus, por toda a bênção pura; que te bendi­gam para sempre!  Louvado sejas, pois deste-me ale­gria, não permi­tindo que acon­­te­ces­se o que eu es­perava, mas trataste-nos confor­me a tua grande misericórdia. Lou­vado sejas, Se­nhor, porque te compade­ceste de dois filhos únicos. Derrama sobre eles, Se­nhor, mise­ri­córdia e salvação, fazendo com que cheguem ao fim da sua vida em ale­gria e graça.» (Tobias 8,15-17)

Na Bíblia, o louvor a Deus é a fonte da alegria dos que Nele creem.

Em ti exultarei de alegria e cantarei salmos ao teu nome, ó Altíssimo.(Salmos 9, 3)

Quando Paulo e Silas foram presos por pregarem a Palavra de Deus, mesmo com cadeias nos pés, sofrendo a fome e a sede no desamparo frio da prisão eis que oram e louvam ao Senhor. 

E deste imenso louvor, eis que as portas da prisão se abrem…(Atos dos Apóstolos 16, 25 e ss.)

Esta alegria imensurável do espírito que sobrepõe a qualquer limite humano é que nos enche da verdadeira felicidade.

Ter coisas que hoje são nossas e amanhã se acabam como a erva que morre, não gera em nós a felicidade.

Se a felicidade estivesse em coisas, todos os milionários do mundo estariam cheios de alegria…

A verdadeira felicidade extrapola este mar de coisas materiais que julgamos trazer-nos gozo e alegria.

A verdadeira felicidade que Jesus me apresenta não se encontra nos tronos dos reis e nem na riqueza que compra os bens materiais.

Deus criou-nos para uma alegria livre em si mesma.



Não existe alegria perfeita, se esta depende daquela coisa ou de alguém para a satisfazer.

A alegria livre em si mesma, está na essência do que sou, como filha de Deus.

Filha de Deus, sou, se encontro esta plenitude da alegria não em mim mesma, mas em Deus.

Aprender a alegria de Deus é contempla-Lo, deixando-se consolar pela Sua Palavra.

Pela fé em Deus, toda e qualquer tristeza é consolada, porque saboreamos esta presença de Deus em tudo o que nos acontece, confiando-nos em Deus, como um filho que sabe que o Pai só quer o melhor para o seu filho.

 “Depois da criação, Deus não abandona a criatura a si mesma. Não só lhe dá o ser e o existir, mas a cada instante a mantém no ser, lhe dá o agir e a conduz ao seu termo. Reconhecer esta dependência total do Criador é fonte de sabedoria e de liberdade, de alegria e de confiança: «Vós amais tudo quanto existe e não tendes aversão a coisa alguma que fizestes: se tivésseis detestado alguma criatura, não a teríeis formado. Como poderia manter-se qualquer coisa, se Vós não quisésseis? Como é que ela poderia durar, se não a tivésseis chamado à existência? Poupais tudo, porque tudo é vosso, ó Senhor, que amais a vida» (Sb 11, 24-26).” (Catecismo da Igreja católica nº 301).

Nada melhor que acabar esta reflexão com as palavras de Maria, mãe de Jesus.

Estas palavras foram ditas no momento que visitava a sua prima Isabel. (Lucas 1, 39-56)

Maria saiu de sua casa e subiu uma montanha para ir ter com a sua prima que estava grávida. 

Maria ao visitar a sua prima, fê-lo por caridade, porque ia ajudar a sua prima que em idade avançada iria ter um filho.

Foi neste ato humilde de serviço ao outro que Maria disse:



“A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador.

Porque pôs os olhos na humildade da sua serva.

De hoje em diante, me chamarão bem-aventurada todas as gerações.

O Todo-poderoso fez em mim maravilhas. Santo é o seu nome.

A sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem.

Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos.

Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes.

Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias.

Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência, para sempre.”

Bibliografia:

Pinturas de Gráccio Caetano - www.gracciocaetano.com

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Felizes os pobres em espírito !



Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu.” (Mateus 5, 3)

Quando ouvimos esta bem-aventurança de Jesus, parece-nos estranha, a princípio.

Estamos acostumados a ouvir que os pobres de espírito são pessoas que na sua fraqueza espiritual facilmente se deixam arrastar pelos apegos materiais e as vãs filosofias. 

Os fracos de espírito desesperam perante as dificuldades da vida pois a sua fé é frágil.

Porém, Jesus louva “os pobres em espírito” e estes em nada se parecem com “os pobres de espírito”.

Existe uma grande diferença entre estas duas expressões.

Ler e reler as escrituras oferece-nos um crescimento contínuo. É maravilhoso como a Palavra de Deus tem tanto para nos falar, nos pormenores que Jesus falou ao povo de Israel naquele tempo e ainda hoje nos fala.

E Jesus diz que os “pobres em espírito” são felizes.

A felicidade é o que mais almejamos neste mundo, porém como podem ser felizes os “pobres em espírito”? Como posso ser eu um “pobre em espírito”?

O catecismo da Igreja Católica nos nºs. 2544 e seguintes, dedica-se à “Pobreza de coração”.
Especialmente no nº 2546, há uma referência à seguinte frase de São Gregório de Nissa: ”O Verbo chama “pobreza em espírito” à humildade voluntária do espírito humano e à sua renúncia; e o apóstolo dá-nos como exemplo a pobreza de Deus, quando diz: “Ele fez-se pobre por nós” (2 Coríntios,9)” .

Pelo que compreendi, para ter a “pobreza em espírito” tenho de primeiramente ser humilde.

Só pela humildade é que consigo ter uma livre vontade para optar e voluntariamente caminhar neste caminho para ser um “pobre em espírito”.

Devo acompanhar o exemplo da pobreza de Deus que se fez “pobre” naquela manjedoura em Belém na forma de um bebé recém-nascido, igualando-se a mim na minha humanidade.

Jesus ensina-me que quem renuncia às riquezas humanas e aos apegos do mundo, é feliz.

São Paulo assim diz na segunda carta a Coríntios 9, 7-8: “Cada um dê como dispôs em seu coração, sem tristeza nem constrangimento, pois Deus ama quem dá com alegria. E Deus tem poder para vos cumular de toda a espécie de graça, para que, tendo sempre e em tudo quanto vos é necessário, ainda vos sobre para as boas obras de todo o género.”

Não posso ter qualquer tipo de constrangimento quando escolho livremente oferecer os meus bens a Deus. 

Quanto maior for a minha alegria neste caminho de “pobreza em espírito” mais Deus proporcionará as graças que realmente necessito.

As graças que realmente preciso, sejam espirituais ou corporais devem ser dádivas e não fruto da escravidão e do egoísmo.

As promessas de Deus inundam toda a terra com a pronta satisfação das nossas necessidades. Estas necessidades não são as anunciadas na TV.

Neste mundo moderno, somos encharcados com necessidades para tudo em todos os cantos e lugares. 

Cada vez mais a nossa mala material nos persegue e nos agarra os pés, durante a nossa viagem aqui na terra.

Lembro-me que, muitas vezes, quando ia numa excursão, preparava a mala de viagem com várias roupas e coisas que julgava serem necessárias durante aqueles dias longe de casa. O certo, é que quase sempre, nem metade daquilo usava e andava de um lado para o outro carregando aquelas pesadas malas…

A vida hoje, parece-me assim. Estamos sempre a levar enormes bagagens materiais atrás de nós. Se vamos de metro ou de comboio, temos de levar um livro para ler ou um tablet para brincarmos um jogo ou escrevermos isso e aquilo. 

Os telemóveis estão cada vez mais apetrechados com aplicações para nos entreterem. 

Enquanto isso, o comboio da nossa vida passa por paisagens maravilhosas que estão do lado de fora da janela, que não são vistas nem apreciadas por nós, porque estamos de olhos centrados naquele ecrã iluminado que nos está a “entreter”.

Quem é “pobre em espírito” fica com o espírito mais leve para apreciar o que se passa à sua volta. A viagem da vida é curta demais e o que vivo hoje é único e irrepetível. 

Mesmo que volte a repetir determinada situação, sei bem que nunca será da mesma maneira.

Tenho de ser “pobre em espírito” para saber optar por esta pobreza a que Jesus me convida a viver”.

Assim diz ainda São Paulo: “Ficai sabendo: Quem pouco semeia, também pouco colherá; mas quem semeia com generosidade, com generosidade também colherá.” (2 Coríntios 9,6)

Mas ainda há quem pense que só os ricos em bens materiais são chamados a se desprenderem dos seus bens.  

Pensamos sempre que este convite à “pobreza em espírito” é apenas dirigida a quem tem imensos bens dos quais se pode despojar.

Engana-se quem pensa assim. 

Jesus fala de sermos “pobres em espírito” e aqui relembro aquela história contada por Jesus de uma certa viúva que entregou a sua pequena oferta no altar.

“Levantando os olhos, Jesus viu os ricos deitarem no cofre do tesouro as suas ofertas. Viu também uma viúva pobre deitar lá duas moedinhas e disse: «Em verdade vos digo que esta viúva pobre deitou mais do que todos os outros; pois eles deitaram no tesouro do que lhes sobejava, enquanto ela, da sua indigência, deitou tudo o que tinha para viver.» (Lucas 21, 1 – 4)

Esta história sempre me inquietou. Uma pobre viúva que oferece no altar aquilo que lhe faz falta. Humanamente, é incompreensível tal despojamento!

Esta pobre viúva entregou muito mais do que aqueles tantos ricos que ali também depositaram as suas ofertas.

Jesus alcança também os pobres pois estes também podem se apegar aos seus poucos bens com tanta avareza como os ricos.

Não se trata aqui de entregar o que nos sobra, mas sim, de confiarmo-nos na Providência de Deus dia após dia. 

Por vezes, não damos os bens materiais porque julgamos que nos irão fazer falta e os guardamos para o dia seguinte ou para o futuro.

Quando Deus mandou o Maná para o seu povo que andava no deserto, disse-lhes que cada um devia apenas recolher o que precisava para aquele dia e não guardar nada para o outro dia. Quem resolveu pegar para além da porção de que precisava naquele dia, acabou por verificar que de um dia para o outro a porção a mais se estragava. O povo assim, teve de esperar da parte do Senhor, o sustento de cada dia, dia após dia, confiando apenas na Providência de Deus.“ (Êxodo  16).

“O abandono à providência do Pai do céu liberta da preocupação pelo amanhã. A confiança em Deus dispõe para a bem-aventurança dos pobres. Eles verão a Deus.”(Catecismo da Igreja Católica, 2547 – 2ª parte).

Os “pobres em espírito” verão a Deus porque desejam a verdadeira felicidade.

O desejo da verdadeira felicidade liberta o homem do apego imoderado dos bens deste mundo, e terá a sua plenitude na visão beatífica de Deus”. (Catecismo da Igreja Católica, 2548 – 1ª parte).

Agora percebo as palavras de Jesus quando disse:
Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu.” (Mateus 5, 3)

O Reino do Céu pertence a todos os “pobres em espírito” porque só estes conseguem estar plenamente livres para viver a verdadeira felicidade em Deus.




Fotos da pintura  sobre tela "São Francisco" de Rosária Vilela - Gráccio Caetano Atelier 
www.gracciocaetano.com


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Jesus convida-nos a ouvir as Bem-aventuranças



Em Mateus 5, 1 – 12, Jesus ensina-nos as Bem-aventuranças, que a princípio nos parecem ambíguas à nossa compreensão racional.

Um dos pormenores que nos devemos ater é que Jesus “ao ver a multidão” subiu a um monte. 

Jesus, certamente tinha observado a multidão e quando falamos de multidão, falamos de várias pessoas com diversidade de raças e até talvez, nacionalidades…

A ocupação romana daquele tempo permitia certa mistura de povos com suas diversas crenças.

Então Jesus, certamente já tinha estado entre a multidão. Muitas das pessoas que seguiam Jesus, procuravam-no por causa dos milagres que fazia. Quantas dessas pessoas lhe pediram a cura e a libertação dos seus males do corpo e do espírito? E quantos também desabafaram os seus problemas a Jesus, contando-lhes as suas dificuldades familiares e materiais?

Por isso, havia ali uma multidão de almas ansiosas por respostas para os seus problemas e as suas debilidades.

E Jesus subiu ao monte. Um monte é um lugar elevado.

Por vezes, diante dos problemas temos de elevar o nosso espírito para que assim do alto, possamos contemplar melhor a amplitude e a dimensão real do que nos atormenta.

Enquanto estivermos afundados nas nossas preocupações, dificilmente podemos descobrir a luz que está acima do véu da água turva que nos abate.

Melhor é que subamos para o alto e que saiamos do fundo que nos agarra os pés…  e, então, livres podermos  elevar o nosso pensamento para as coisas do alto.

São Paulo, em certa altura, aconselha desta maneira uma das comunidades cristãs daquele tempo: “Aspirai às coisas do alto e não às coisas da terra.” (Carta aos Colossenses 3, 2).

Jesus subiu ao monte e de lá conseguia ver o mar de gente que o seguia com todas as suas dores, angústias e preocupações. O que poderia dizer a toda esta multidão que ansiava por libertação?

Jesus sentou-se. Muitos dos sermões foram dados por Jesus depois de sentar-se no meio do povo. Este à vontade de Jesus revela a sua convicção acerca do que falava. Ele não precisa estar de pé, falar alto ou gesticular energicamente para ser ouvido.

Ao sentar-se, Jesus convida a todos a sentarem-se com ele. E quando nos sentamos, percebemos logo que o que vai ser dito será demorado.

O gesto de nos acomodar e pormo-nos à vontade, seja em que situação for, revela que não temos pressa e estamos completamente disponíveis para aquele momento.

Jesus, não se importa, que ao sentar-se, não se torne visível a todos. Aliás, com uma multidão em torno dele, Ele sabia que nem todos o veriam nas melhores condições.

Efetivamente, Jesus não desejava que o vissem e o contemplassem pelo que era fisicamente. 

Jesus, deste modo, nos convida a contemplar no íntimo do coração as suas palavras.

Nos tempos de hoje nos atemos muito ao que vemos e não tanto ao que ouvimos. A televisão procura captarmos mais pelo sentido da visão do que pelos demais sentidos. E, por vezes, acabamos por nos prender a pormenores efémeros como um corte de cabelo ou um estio de roupa.

Quantas vezes, já me aconteceu de ver um programa de televisão e ao final, pouco me lembrar do que foi dito e acabar por apenas me recordar de uma imagem chocante que foi exibida?

Jesus, já naquele tempo nos ensinava a ouvir e não tanto a ver….  

“Que o sábio escute, e aumentará seu saber, e o homem inteligente adquirirá prudência para compreender os provérbios, as alegorias, as máximas dos sábios e seus enigmas.” (Provérbios 1, 5-6)

Jesus ensina-nos que falar com o coração é mais eficaz do que falar com eloquência.

Ao mesmo tempo, Jesus sabia que quem o quisesse ouvir, ia ficar à espera das suas palavras pois eram estas que iriam confortar os seus corações. Quem tivesse com pressa ou preocupado com a imagem de Jesus, já estava de antemão, surdo e distante da Sua presença.

“Depois de se ter sentado, os discípulos aproximaram-se dele.” Sim, quem deseja ouvir Jesus e aprender com Ele chega-se mais perto. Se desejamos ouvir Jesus devemos nos aproximar Dele. E essa aproximação faz-se com o coração puro e desapegado.

Se começamos a rezar com o nosso pensamento preso às preocupações e com a limitação do relógio, estamos muito longe da presença de Jesus.

Os verdadeiros discípulos de Jesus, aproximam-se o mais que podem.  O coração e os ouvidos ficam completamente absorvidos pela presença de Jesus.

Este aproximar-se de Jesus é feito à medida que nos colocamos inteiramente disponíveis para ouvi-Lo.

E Jesus “então tomou a palavra e começou a ensiná-los, dizendo”: “Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu.


(Este texto continua nas próximas publicações deste blogue…)

(Os textos bíblicos foram retirados do seguinte site on line: www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria)

(A foto é uma pintura de Rosária Vilela de tinta acrílica sobre cetim intitulada "Jesus, o Senhor que cura".)