domingo, 28 de janeiro de 2018

A armadura do cristão – Parte IV: "Orai em todo o tempo no Espírito!"





(Continuação do artigo anterior que pode ser lido em A armadura do Cristão - Parte III)

 “Servindo-vos de toda a espécie de orações e preces, orai em todo o tempo no Espírito; e, para isso, vigiai com toda a perseverança e com preces por todos os santos, e também por mim; que, quando abrir a minha boca, me seja dada a palavra, para que, corajosamente, dê a conhecer o mistério do Evangelho, de que sou embaixador em cadeias; que, nele, eu possa falar aberta e corajosamente, tal como é meu dever.” (Efésios 6, 18 – 20)

Com estes versículos termino a minha reflexão humilde acerca da armadura do cristão, diante das lutas e perseguições, males espirituais e corporais que temos neste mundo. 

Vivemos em combate, e São Paulo ensina-nos a partir do primeiro versículo do capítulo 6 da Carta aos Efésios, que nos devemos revestir de uma armadura de Deus, indicando-nos também as várias armas espirituais que culminam com estes três últimos versículos.

São Paulo sabe que esta armadura não é fácil de ser tecida por causa da nossa fragilidade humana, e por isso, ele propõe que toda e qualquer ação ou pensamento una-se ao “orar em todo o tempo no espírito”.

Este orar em todo o tempo, significa que a oração deve acompanhar o cristão em todo o tipo de acontecimento, e não importa se os tempos são bons ou maus, propícios ou não à oração, se podemos ou não rezar.



"«Mistério admirável da nossa fé!». A Igreja professa-o no Símbolo dos Apóstolos (primeira parte) e celebra-o na liturgia sacramental (segunda parte), para que a vida dos fiéis seja configurada com Cristo no Espírito Santo para glória de Deus Pai (terceira parte). Este mistério exige, portanto, que os fiéis nele creiam, o celebrem e dele vivam, numa relação viva e pessoal com o Deus vivo e verdadeiro. Esta relação é a oração." (Catecismo da Igreja Católica nº. 2558)

E por isso, São Paulo propõe que a nossa oração contínua deve ser feita no espírito.

Quando a oração é feita no espírito, ela não necessita de ser exposta publicamente, nem deve aguardar que haja uma oportunidade para ser acolhida em nosso pensamento.

Orar em espírito é um voar para além dos nossos desejos, para além do momento em que estamos, e muito mais além do que achamos suficiente.


De onde procede a oração do homem? Seja qual for a linguagem da oração (gestos e palavras), é o homem todo que ora. Mas para designar o lugar de onde brota a oração, as Escrituras falam às vezes da alma ou do espírito ou, com mais frequência, do coração (mais de mil vezes). É o coração que ora. Se ele estiver longe de Deus, a expressão da oração será vã.” (Catecismo da Igreja Católica nº. 2562)

Esta oração não é uma oração egoísta ou centrada em nós próprios. Esta oração deve abraçar todos os demais que também enredam a luta pela santidade. E por isso São Paulo solicita que esta oração seja feita como quem vigia atento, com toda a perseverança, rezando por todos os santos, e também por ele, o próprio apóstolo São Paulo.

Isto talvez até nos admire, o por quê dos que já estão convertidos ainda precisarem das nossas orações. No entanto, o combate neste mundo é intenso e ninguém está imune às quedas e às tentações. Assim sendo, as orações são esta chama sempre acesa a iluminar os nossos passos.

O Papa Francisco é um exemplo vivo do que São Paulo aqui solicitou nesta passagem, pois uma das primeiras coisas que pediu ao povo católico, depois de eleito como papa, é que que todo o povo que assistia a sua tomada de posse, rezasse por ele. E ao longo dos anos do seu mandato pontifício, e em todas as suas apresentações públicas, o Papa Francisco é o primeiro a pedir que rezem por ele.

“A intercessão é uma oração de petição que nos conforma de perto com a oração de Jesus. É Ele o único intercessor junto do Pai em favor de todos os homens, em particular dos pecadores (Cf. Rm 8, 34; 1 Jo 2, 1; 1 Tm 2, 5-8.). Ele «pode salvar de maneira definitiva aqueles que, por seu intermédio, se aproximam de Deus, uma vez que está sempre vivo, para interceder por eles» (Heb 7, 25). O próprio Espírito Santo «intercede por nós [...] intercede pelos santos, em conformidade com Deus» (Rm 8, 26-27).” (Catecismo da Igreja Católica nº. 2634)


Por quê esta necessidade de rezarmos pelos outros, especialmente pelos que já estão no caminho da santidade? 

É o próprio São Paulo que responde: para que quando estes abrirem a sua boca, lhes seja dada a palavra, e assim, corajosamente, dêem a conhecer o mistério do Evangelho.

O Espírito Santo deve guiar todas as palavras ditas por aqueles que propagam o Evangelho para que possam sempre dizer o que edifica, para que nunca apague a mecha que ainda fumega, esta mecha de fé que ainda está no coração dos que as ouvirem. 

“Assim se cumpriu o que fora anunciado pelo profeta Isaías: Aqui está o meu servo, que escolhi, o meu amado, em quem a minha alma se deleita. Derramarei sobre Ele o meu espírito, e Ele anunciará a minha vontade aos povos. Não discutirá nem bradará, e ninguém ouvirá nas praças a sua voz. Não há-de quebrar a cana fendida, nem apagar a mecha que fumega, até conduzir a minha vontade à vitória. E, no seu nome, hão-de esperar os povos!” (Mateus 12, 17 – 21)

Mesmo sendo Paulo um embaixador, estava em cadeias, ou seja, estava preso; e ainda mais precisava das orações para que pudesse falar do Evangelho de Jesus Cristo, de forma aberta e corajosamente, tal como é o dever de qualquer cristão intimamente convertido.

São Paulo já estava preso à espera de julgamento pelo tribunal romano, e assim permaneceu nos seus últimos anos antes de ser condenado à morte, por não desistir de viver e de falar de Jesus Cristo, abertamente, apesar das perseguições e das calúnias.

“Interceder, pedir a favor de outrem, é próprio, desde Abraão, dum coração conforme com a misericórdia de Deus. No tempo da Igreja, a intercessão cristã participa na de Cristo: é a expressão da comunhão dos santos. Na intercessão, aquele que ora não «olha aos seus próprios interesses, mas aos interesses dos outros» (Fl 2, 4), e chega até a rezar pelos que lhe fazem mal (108. Cf. Santo Estêvão rezando pelos que o supliciavam, como Jesus: cf. Act 7, 60; Lc 23, 28.34.)”. (Catecismo da Igreja Católica nº. 2635)

A oração como intercessão acompanhou os primeiros cristãos porque assimilaram intensamente a mensagem de Jesus, não como uma dádiva de salvação pessoal, mas como meio para santificação dos outros, crentes ou não crentes. Um cristão não se santifica sozinho, mas tem uma missão que ultrapassa a sua própria santificação.

As primeiras comunidades cristãs viveram intensamente esta forma de partilha (109. Cf. Act 12, 5; 20, 36; 21, 5; 2 Cor 9, 14.). O apóstolo Paulo fá-las participar deste modo no seu ministério do Evangelho (110. Cf. Ef 6, 18-20; Cl 4, 3-4; 1 Ts 5, 25.) mas ele próprio também intercede por elas (111. Cf. 2 Ts 1, 11; Cl 1, 3; Fl 1, 3-4). A intercessão dos cristãos não conhece fronteiras: «[...] por todos os homens, [...] por todos os que exercem a autoridade» (1 Tm 2, 1), pelos perseguidores (112. Cf. Rm 12, 14.), pela salvação dos que rejeitam o Evangelho (Cf. Rm 10, 1.).“ (Catecismo da Igreja Católica nº. 2636)
  
As orações de todos são preciosas, tornam-se sustento para que aqueles que estão em lutas espirituais e perseguições, possam ter forças para continuar o seu caminho de santidade e de anúncio do Evangelho.

“A oração é a vida do coração novo. Deve animar-nos a todo o momento. Mas acontece que nos esquecemos d'Aquele que é a nossa vida e o nosso tudo. É por isso que os Padres espirituais, na sequência do Deuteronómio e dos profetas, insistem na oração como «lembrança de Deus», frequente despertador da «memória do coração». «Devemos lembrar-nos de Deus com mais frequência do que respiramos» (1. São Gregório Nazianzo, Oratio 27 (theologica 1), 4: SC 250, 78 (PG 36, 16).). Mas não se pode orar «em todo o tempo», se não se orar em certos momentos, voluntariamente: são os tempos fortes da oração cristã, em intensidade e duração.” (Catecismo da Igreja Católica nº. 2697)

A oração é tão importante na Igreja Católica que existem orações que são diariamente feitas por leigos e consagrados em todo o mundo, para além da Eucaristia diária e os demais sacramentos comuns a todos os cristãos. Trata-se da Liturgia das horas que acompanha o dia a dia de muitos, por todo o mundo.


“A Tradição da Igreja propõe aos fiéis ritmos de oração destinados a alimentar a oração contínua. Alguns são quotidianos: a oração da manhã e da noite, antes e depois das refeições, a Liturgia das Horas. O Domingo, centrado na Eucaristia, é santificado principalmente pela oração. O ciclo do ano litúrgico e as suas grandes festas constituem os ritmos fundamentais da vida de oração dos cristãos.” (Catecismo da Igreja Católica nº. 2698)

Não estarmos sós neste mundo de combate mas toda a Igreja participa desta comunhão de oração.

“A comunhão dos santos, de fato, indica que somos todos imersos na vida de Deus e vivemos no seu amor. Todos, vivos e mortos, estamos na mesma comunhão, isso é, como uma união; unidos na comunidade de quantos receberam o Batismo e daqueles que se alimentaram do Corpo de Cristo e fazem parte da grande família de Deus. Todos somos a mesma família, unidos. E por isso rezemos uns pelos outros.” (Papa Francisco – Catequese na Sala Paulo VI – Vaticano  - 30 de novembro de 2016)

Logo a seguir, ao fim deste artigo deixo alguns links dos sites de oração que convido a visitar. São sites atualizados diariamente, e que podem ser luz para as nossas vidas, fortalecendo a nossa fé, alcançando-nos e convidando-nos a fazer parte desta Igreja além-fronteiras, numa mesma sintonia e perseverança na oração como São Paulo nos admoestou.

Termino este artigo com uma oração ensinada pelo Papa Francisco na Audiência Geral de quarta-feira no dia 22 de Junho de 2016. 

Segundo o Papa Francisco, ele reza esta oração todas as noites antes de dormir, para pedir a Deus sua misericórdia e que o purifique, tal como fez com o leproso do Evangelho. É uma oração curta, mas certeira e profundamente consciente da misericórdia de Deus perante a nossa fragilidade humana.

Assim como o leproso se dirigiu a jesus, suplicando: “Senhor, se queres, podes purificar-me”, o Papa Francisco referiu que este leproso “não pede somente para ser curado, mas para ser ‘purificado’, isto é, curado integralmente no corpo e no coração”.

Assim, com plena confiança na onipotência e na bondade de Jesus, o Papa Francisco reza esta breve oração: 

‘Senhor, se queres, podes purificar-me!’

Esta breve oração deve ser feita com o pensamento em cada uma das cinco chagas de Jesus, rezando de seguida “cinco “Pai Nosso”, um por cada chaga de Jesus, porque Jesus nos purificou com as suas chagas”,…”e Jesus nos escuta sempre”, assim foram as palavras do Papa Francisco.

A oração não precisa ser longa, mas o que deve ser profundo é o nosso pensamento em Deus, enquanto oramos.
 (Texto e fotos de Rosária Grácio)






Sites de oração católica:








O Catecismo da Igreja Católica foi consultado em:

O trecho bíblico foi consultado em
capuchinhos.org/biblia/

Os textos sobre o Papa Francisco foram consultados em:



domingo, 5 de novembro de 2017

A Armadura de Deus - Parte III: Mantende-vos, portanto, firmes!

“Mantende-vos, portanto, firmes, tendo cingido os vossos rins com a verdade, vestido a couraça da justiça e calçado os pés com a prontidão para anunciar o Evangelho da paz; acima de tudo, tomai o escudo da fé, com o qual tereis a capacidade de apagar todas as setas incendiadas do maligno. Recebei ainda o capacete da salvação e a espada do Espírito, isto é, a palavra de Deus.” (Efésios 6, 14-17)

Ao ler várias vezes estes versículos, sinto que ainda tenho tanto a aprender com a minha fé. Aliás, será que a vivo realmente? 

Esta armadura de Deus intensifica-se agora na pele de um soldado. 

Um dia ouvi uma frase de um militar que me disse:
 - “Um verdadeiro soldado não dorme!”

Sim, um soldado deve estar sempre preparado, porque a qualquer momento, o inimigo pode avançar e atacar. Um soldado deve estar sempre atento, porque se não estiver bem protegido, pode ser atingido. Uma desatenção causa a morte a um soldado.

São Paulo convida-me a ser um soldado neste mundo de lutas contínuas.

“Esta dramática situação do mundo, que «está todo sob o poder do Maligno» (1 Jo 5, 19) (Cf. 1 Pe 5, 8.), transforma a vida do homem num combate: «Um duro combate contra os poderes das trevas atravessa toda a história dos homens. Tendo começado nas origens, há-de durar – o Senhor no-lo disse – até ao último dia. Empenhado nesta batalha, o homem vê-se na necessidade de lutar sem descanso para aderir ao bem. Só através de grandes esforços é que, com a graça de Deus, consegue realizar a sua unidade interior»” (II Concílio do Vaticano. Const. past. Gaudium et spes, 37: AAS 58 (1966) 1055). (Catecismo da Igreja católica nº 409)

Esta armadura de Deus não é uma armadura física ou material. Esta armadura é construída com ações.

“Não se pode pensar numa vida espiritual, numa vida cristã, sem resistir às tentações, sem lutar contra o diabo, sem vestir esta armadura de Deus, que nos dá força e nos defende”. (Papa Francisco - 30 de outubro de 2014)

Penso que cabe a mim decidir o que quero realmente fazer. Deus nos deu o poder de opção. Podemos optar por vestir ou não esta armadura de Deus. Há quem pense que este combate é uma mera ilusão e que afinal o mal não é assim tão mau … 

Porém, diante das catástrofes ou contrariedades da vida, logo erguem-se as vozes: - afinal o mal sempre existe!

Portanto, nos dias bons, é fácil esquecer a nossa armadura cristã no nosso armário das relíquias. Porém, esta armadura alimenta-se da nossa ação como cristão. Assim como a traça come a roupa esquecida nos armários, da mesma forma, existe uma traça que devora esta armadura do cristão quando não é usada diariamente.

A traça percebe quando a roupa está muito quieta e vai alimentando-se da sua fibra, quase que invisivelmente. É quase impercetível, porém após algum tempo, a traça faz um minúsculo buraco que vai aumentando de dia para dia.

Assim sendo, ao ler esta passagem bíblica sobre a armadura do cristão, percebo que este só se mantém firme se agir da seguinte forma:
  • Cingir os rins com a verdade,
  • vestir a couraça da justiça
  • calçar os pés com a prontidão para anunciar o Evangelho da paz;
  • acima de tudo, tomar o escudo da fé, com o qual tereis a capacidade de apagar todas as setas incendiadas do maligno.
  • Receber ainda o capacete da salvação e a espada do Espírito, isto é, a palavra de Deus.


A armadura do cristão não é algo que se compra ou que se adquire. A armadura do cristão é tecida pelo cristão por meio das suas ações. São Paulo usa verbos quando começa a descrever a armadura do cristão e isto não é por acaso. 

E para além dos verbos, São Paulo indica materiais concretos, que são como que as fibras necessárias, com as quais é tecida a armadura do cristão:
  • A verdade deve cingir os rins,
  • A justiça é a couraça
  • O Evangelho da paz deve estar pronto a ser anunciado onde quer que andemos.
  • A fé é o escudo que apaga as setas acesas pelo maligno
  • A salvação é o capacete que preenche a cabeça do cristão.
  • A palavra de Deus é a espada do Espírito.

 Então, mais em pormenor, devo aprofundar o conhecimento de cada uma das “fibras espirituais” que compõem a armadura do cristão.



Palavras bíblicas consultadas em

Catecismo da Igreja Católica consultado em:
www.vatican.va/

A frase do Papa Francisco foi retirada do seguinte site:



Pinturas de Gráccio Caetano
www.gracciocaetano.com


Fotos de Rosária Grácio


sábado, 16 de setembro de 2017

A Armadura de Deus - Parte II: Revesti-vos da armadura de Deus!


Continuação do artigo anterior - "A Armadura de Deus- Parte I: Tornai-vos fortes no Senhor e na sua força poderosa"

"Revesti-vos da armadura de Deus, para terdes a capacidade de vos manterdes de pé contra as maquinações do diabo. Porque não é contra os seres humanos que temos de lutar, mas contra os Principados, as Autoridades, os Dominadores deste mundo de trevas, e contra os espíritos do mal que estão nos céus. Por isso, tomai a armadura de Deus, para que tenhais a capacidade de resistir no dia mau e, depois de tudo terdes feito, de vos manterdes firmes." (Efésios 6, 11-13)

São Paulo não me faz um pedido, mas diz-me, com toda a autoridade, que se eu quiser me manter de pé, tenho de me revestir da armadura de Deus.

Segundo o dicionário, “Revestir”, é “tornar a vestir, cobrir; tapar, fazer o revestimento. Ou seja, tenho de me vestir por completo com a armadura de Deus, aliás tenho que fazer com que esta armadura de Deus possa me tapar inteira, protegendo-me completamente, para que possa me manter de pé diante das contrariedades do mal.

Aqui não existem opções. Ou me revisto desta armadura de Deus, ou então, certamente irei cair diante das dificuldades que, certamente, se porão à minha frente.



Mas afinal, de que devemos nos proteger? São Paulo diz-nos claramente: das maquinações do diabo, dos Principados, das Autoridades e dos Dominadores deste mundo de trevas, bem como dos espíritos do mal que estão nos céus. E para além disso, temos de nos precaver, pois chegarão os chamados "dias maus", pelos quais temos de passar durante a nossa vida.

São Paulo denomina o que poderá nos ameaçar e alerta-nos ainda no versículo 12: “Porque não é contra os seres humanos que temos de lutar, mas contra os Principados, as Autoridades, os Dominadores deste mundo de trevas, e contra os espíritos do mal que estão nos céus.

Por vezes, penso que a minha guerra é contra pessoas. Coloco muitas vezes a culpa nos outros, em situações e coisas materiais para este ou aquele flagelo que me aconteceu. Porém, São Paulo avisa-me que, enquanto pensar assim, acabo por me desviar do verdadeiro alvo.

Esta dramática situação do mundo, que «está todo sob o poder do Maligno» (1 Jo 5, 19) (Cf. 1 Pe 5, 8.), transforma a vida do homem num combate: «Um duro combate contra os poderes das trevas atravessa toda a história dos homens. Tendo começado nas origens, há-de durar – o Senhor no-lo disse – até ao último dia. Empenhado nesta batalha, o homem vê-se na necessidade de lutar sem descanso para aderir ao bem. Só através de grandes esforços é que, com a graça de Deus, consegue realizar a sua unidade interior» (II Concílio do Vaticano. Const. past. Gaudium et spes, 37: AAS 58 (1966) 1055.)” (Catecismo da Igreja Católica nº 409)

Há alguns dias, o Papa Francisco esteve na Colômbia e a mídia manteve-se quase que silenciosa a respeito desta sua visita pastoral. No entanto, eis que o Papa Francisco se desequilibra no papa-móvel, em Cartagena, na Colômbia, batendo a cara numa as estruturas do carro, magoando-se sem muita gravidade. No entanto, esta queda, foi notícia em todos os jornais e redes de televisão.

Este é um pequeno exemplo, que prova o quanto o mundo está ansioso pelo mal. Notícias boas raramente são alvo de atenção. O que realmente é falado abertamente é o que choca, o que de mais negativo invade o mundo.

Nisto percebo o porquê de São Paulo falar dos tais Principados, Autoridades e Dominadores deste mundo de trevas. Dia após dia, percebe-se este galgar nas trevas a partir destas opções humanas por valorizar o negativo, incentivar a perda, enaltecer a catástrofe. A pessoa humana torna-se refém das suas fragilidades, e o desânimo instala-se em seu coração, acomodando-a às situações que lhe parecem imutáveis e ligadas a uma sina indestrutível. 

A tentação apresenta-se-nos de modo traiçoeiro, contagia todo o ambiente que nos circunda, leva-nos a procurar sempre uma justificação. E no fim faz-nos cair no pecado, fechando-nos numa jaula da qual é difícil sair. Para lhe resistir é preciso ouvir a palavra do Senhor, porque «ele nos espera», dá-nos sempre confiança e abre diante de nós um novo horizonte.” (síntese da reflexão do Papa Francisco durante a missa celebrada em Santa Marta na manhã de terça-feira 18 de Fevereiro de 2014).



O diabo já está derrotado, porém ele não quer ir sozinho para o caminho que já lhe está destinado. O ser humano é o seu grande alvo principal, pois sabe que ao magoar e fazer perder o ser humano, estará também a tirar de Deus, as suas criaturas amadas. E o mal gosta de justificar-se, trazendo companhia para não mostrar que é o único. Ele gosta de tornar o ser humano incapaz de lutar contra as suas limitações, pois assim é mais fácil leva-lo à descrença acerca da Bondade de Deus e à soberba por julgar-se capaz por si próprio para lutar sozinho.

Inicialmente a tentação «começa com um ar tranquilizador»?, mas «depois aumenta. O próprio Jesus o dizia quando contou a parábola do trigo e do joio (Mt 13, 24-30). O grão crescia, mas crescia também o joio semeado pelo inimigo. E assim também a tentação, cresce, cresce, cresce. E se não a bloqueamos, invade tudo». Depois vem o contágio. A tentação «cresce mas não gosta da solidão»; portanto «procura companhia, contagia outro e assim acumula pessoas». Outro aspecto é a justificação, porque nós homens «para estarmos tranquilos justificamo-nos».” (Meditações do Papa Francisco na missa celebrada em Santa Marta em 18 de Fevereiro de 2014).

Quando o ser humano se conscientiza que é uma pérola preciosa de Deus, evidenciando a sua natureza única na Criação bela de Deus, assume o seu valor único e incalculável pelo que é, e pela missão que lhe está destinada neste mundo.

O diabo, por sua vez, quer de todas as maneiras que foquemos no mal, no que de mais perverso há nos outros e em nós mesmos.  Por isso abunda no mundo, autoridades destinadas a tirar o que há de mais sagrado no ser humano: a sua vida, desde a concepção no útero até a sua morte, a sua identidade biológica como homem e mulher que se complementam bem como a sua ação única no universo com os seus dons e carismas específicos de cada um.

Então, toda esta reflexão daquela parábola do trigo e do joio contada por Jesus serve-me de ensinamento:

Jesus propôs-lhes outra parábola: «O Reino do Céu é comparável a um homem que semeou boa semente no seu campo. Ora, enquanto os seus homens dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e afastou-se. Quando a haste cresceu e deu fruto, apareceu também o joio. Os servos do dono da casa foram ter com ele e disseram-lhe: Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde vem, pois, o joio? Foi algum inimigo meu que fez isto - respondeu ele. Disseram-lhe os servos: Queres que vamos arrancá-lo? Ele respondeu: Não, para que não suceda que, ao apanhardes o joio, arranqueis o trigo ao mesmo tempo. Deixai um e outro crescer juntos, até à ceifa; e, na altura da ceifa, direi aos ceifeiros: Apanhai primeiro o joio e atai-o em feixes para ser queimado; e recolhei o trigo no meu celeiro.»”(São Mateus 13, 24- 30)



Assim como este trigo que é semeado para dar fruto, é cercado pelo joio que o tenta emudecer e matar, igualmente o mundo assim se mostra não apenas no tempo de Jesus, como também nos nossos tempos. A meu entender, pela leitura que faço da história da civilização, que esta parábola do trigo e do joio que crescem juntos, traduz toda a vida humana nesta terra, desde os seus primórdios.

O ensinamento da parábola é dúplice. Antes de tudo recorda que o mal existente no mundo não deriva de Deus, mas do seu inimigo, o Maligno. É curioso, o Maligno sai à noite para semear o joio, na escuridão, na confusão; sai para semear o joio onde não há luz. Este inimigo é astuto: semeou o mal no meio do bem, de tal forma que para nós, homens, é impossível separá-lo claramente; mas no final Deus conseguirá fazê-lo!”(Papa Francisco na oração do Angelus de 20 de julho de 2014).

Existem realmente muitos que dizem que é melhor retirar o joio, "matar o mal pela raiz", como dizem, e nós humanos gostamos de dar soluções fáceis para problemas difíceis. Porém, o Senhor do campo é paciente, pois sabe que as aparências enganam, e que felizmente, ainda há muito trigo escondido em meio ao joio. Deus vê o seu campo de trigo a crescer com o joio e aguarda pela colheita, quando já se pode separar, com certeza, o que é o joio e o que é o trigo.

A atitude do dono do campo é aquela da esperança fundada na certeza de que o mal não é a primeira nem a última palavra. E é graças a esta esperança paciente de Deus que o próprio joio, ou seja, o coração maldoso, com muitos pecados, no final pode tornar-se uma boa semente. Mas atenção: a paciência evangélica não é indiferença diante do mal; não se pode fazer confusão entre o bem e o mal! Perante o joio presente no mundo, o discípulo do Senhor é chamado a imitar a paciência de Deus, a alimentar a esperança com o alento de uma confiança inabalável na vitória final do bem, ou seja, de Deus.”(Papa Francisco na oração do Angelus de 20 de julho de 2014).

Deus quer que todos se salvem, porém respeitará a nossa opção!

Deus não predestina ninguém para o Inferno (II Concílio de Orange, Conclusio: DS 397; Concílio de Trento, Sess. 6ª. Decr: de iustificatione, canon 17: DS 1567). Para ter semelhante destino, é preciso haver uma aversão voluntária a Deus (pecado mortal) e persistir nela até ao fim. Na liturgia eucarística e nas orações quotidianas dos seus fiéis, a Igreja implora a misericórdia de Deus, «que não quer que ninguém pereça, mas que todos se convertam» (2 Pe 3, 9): «Aceitai benignamente, Senhor, a oblação que nós, vossos servos, com toda a vossa família, Vos apresentamos. Dai a paz aos nossos dias livrai-nos da condenação eterna e contai-nos entre os vossos eleitos» (Oração Eucarística I ou Cânone Romano, 88: Missale Romanum, editio typica (Typis Polyglottis Vaticanis 1970), p. 450 [Missal Romano, Gráfica de Coimbra 1992, 518]). (Catecismo da Igreja Católica nº. 1037)



Jesus, mais adiante no mesmo evangelho, explica também esta parábola aos seus discípulos:

Afastando-se, então, das multidões, Jesus foi para casa. E os seus discípulos, aproximando-se dele, disseram-lhe: «Explica-nos a parábola do joio no campo.» Ele, respondendo, disse-lhes: «Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem; o campo é o mundo; a boa semente são os filhos do Reino; o joio são os filhos do maligno; o inimigo que a semeou é o diabo; a ceifa é o fim do mundo e os ceifeiros são os anjos. Assim, pois, como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será no fim do mundo: o Filho do Homem enviará os seus anjos, que hão-de tirar do seu Reino todos os escandalosos e todos quantos praticam a iniquidade, e lançá-los na fornalha ardente; ali haverá choro e ranger de dentes. Então os justos resplandecerão como o Sol, no Reino de seu Pai. Aquele que tem ouvidos, oiça!».”(São Mateus 13, 36- 43)

Jesus, assim explica aos seus discípulos e em particular, sobre o significado da parábola do joio e do trigo, usando palavras muito fortes que são finalizadas com uma advertência:  "Aquele que tem ouvidos, oiça!"

Com efeito, no final o mal será arrancado e eliminado: no tempo da colheita, isto é do juízo, os ceifeiros cumprirão a ordem do senhor, separando o joio para o queimar (cf. Mt 13, 30). Naquele dia da ceifa final o Juiz será Jesus, Aquele que lançou a boa semente no mundo e, tornando-se Ele mesmo «grão de trigo», morreu e ressuscitou. No final, todos nós seremos julgados com a mesma medida com a qual tivermos julgado: a misericórdia que tivermos usado em relação aos outros será utilizada também para connosco. Peçamos a Nossa Senhora, nossa Mãe, que nos ajude a crescer na paciência, na esperança e na misericórdia com todos os irmãos.” (Papa Francisco na oração do Angelus de 20 de julho de 2014)

Não devemos fingir que o mal não existe, ou que o mal já venceu… A história humana nestes séculos de existência em meio a guerras, doenças e cataclismas prova exatamente o contrário, pois no fim de tudo, eis que a caridade sara as feridas e o bem reconstrói os corações. Os verdadeiros heróis da história não estão nos manuais da escola pois estes não erguem as espadas, mas sim são os que lentamente, tijolo a tijolo, reerguem as sociedades humanas em alicerces seguros que são os valores morais que levam à paz e a concórdia entre os povos.

“Por isso, tomai a armadura de Deus, para que tenhais a capacidade de resistir no dia mau e, depois de tudo terdes feito, de vos manterdes firmes.” (Efésios 6, 13)

Afinal, todo este suposto “domínio das trevas”, apesar de nefasto e homicida, está derrotado na cruz de Jesus. Assim como no tempo do apóstolo São Paulo, hoje também estamos nesta luta espiritual, e apesar de tanto alarde que é feito, surgem sempre flores perfumadas no meio dos pântanos, janelas abrem-se em direção ao céu apesar da escuridão da terra, o trigo cresce nas cearas entre o joio que o tenta limitar e sucumbir…






Deixo aqui alguns links de histórias recentes em que pessoas heroicamente persistem e mudam o rumo da história, reconstruindo-a, apesar das perseguições e perdas:

Bibliografia:

Palavras bíblicas consultadas em

Frases do Papa Francisco e do Catecismo da Igreja Católica consultados em:
www.vatican.va/

Pinturas de Gráccio Caetano
www.gracciocaetano.com

Fotos de Rosária Grácio

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

A Armadura de Deus - I Parte: Tornai-vos fortes no Senhor e na sua força poderosa!



Na carta aos Efésios, São Paulo fala da armadura de Deus no capítulo 6, versículos 10 a 20. Esta leitura é uma das usadas na oração do Cerco de Jericó como cura e libertação.

Pessoalmente, ao ler esta leitura sinto uma grande força e fé, pelo que vou dedicar os próximos artigos na reflexão profunda desta armadura de Deus tão necessária nos nossos tempos.

O versículo nº10 intensifica todo este poder que irá ainda nos versículos seguintes crescer gradualmente:  "Finalmente, tornai-vos fortes no Senhor e na sua força poderosa." (Efésios 6, 10)

São Paulo convida a todos a se tornarerm fortes no Senhor e na sua força poderosa e isto é dito com total confiança.


"Reconhece, ó cristão, a tua dignidade. Uma vez constituído participante da natureza divina, não penses em voltar às antigas misérias da tua vida passada. Lembra-te de que cabeça e de que corpo és membro. Não te esqueças de que foste libertado do poder das trevas e transferido para a luz e para o Reino de Deus". (São Leão Magno, Sermo 21, 3: CCL 138, 88 (PL 54, 192-193)."(Catecismo da Igreja Católica nº 691)

Se descobrimos uma luz, porquê apaga-la? Se acreditas em Deus, porquê voltar para trás, depois de encontra-Lo?




"Cristo Jesus fez sempre aquilo que era do agrado do Pai (Cf. Jo 8, 29). Viveu sempre em perfeita comunhão com Ele. De igual modo, os seus discípulos são convidados a viver sob o olhar do Pai, «que vê no segredo» (Mt 6, 6), para se tornarem «perfeitos como o Pai celeste é perfeito» (Mt 5, 47)." (Catecismo da Igreja Católica nº1693)


Quem encontra Deus em sua vida, encontra a verdadeira felicidade. Esta alegria não só fomentou a esperança dos mártires, também faz avançar os cristãos diante das tormentas da vida e faz reerguer quem está abatido em suas perdas espirituais e materiais.


"O caminho de Cristo «leva à vida»; um caminho contrário «leva à perdição» (Mt 7, 13) (Cf. Dt 30, 15-20). A parábola evangélica dos dois caminhos está sempre presente na catequese da Igreja. E significa a importância das decisões morais para a nossa salvação. «Há dois caminhos, um da vida, outro da morte: mas entre os dois existe uma grande diferença» (18. Didaké 1, 1: SC 248, 140 (Funk 1, 2)." (Catecismo da Igreja Católica nº1696)



Crer em Deus é escolher um caminho e é neste caminho que deve-se manter. Como quem encontra uma pedra preciosa que enche o seu coração na verdadeira felicidade, assim sente aquele que descobre Deus em sua vida.


"Ele salva e Ele liberta, faz milagres e prodígios no céu e na terra: foi Ele quem livrou Daniel das garras dos leões." (Daniel 6, 28)" 

Jesus ensinou-nos por várias vezes o quanto este sentir e viver em Deus torna-nos capazes de muitos prodígios e receptáculos de bênçãos não só para nós mesmos mas muito mais para os que nos rodeiam.


"Estes sinais acompanharão aqueles que acreditarem: em meu nome expulsarão demónios, falarão línguas novas, apanharão serpentes com as mãos e, se beberem algum veneno mortal, não sofrerão nenhum mal; hão-de impor as mãos aos doentes e eles ficarão curados."(São Marcos 16, 17-18)


Quem encontra Jesus, encontra Nele, tudo o que deseja e segue-O. E seguir Jesus exige muito mais do que simples "sim" dos lábios.

"Quem não tomar a sua cruz para me seguir, não é digno de mim. Aquele que conservar a vida para si, há-de perdê-la; aquele que perder a sua vida por causa de mim, há-de salvá-la."(São Mateus 10, 38-39)

Este seguir Jesus não é um simples seguir com passos em uma estrada. O seguir Jesus em sua vida diária promove-se dia após dia nessa descoberta da sua Palavra, vivendo-a na sua vida, com a coragem de carregar a cruz das suas limitações físicas e espirituais, empenhando-se a ser todos os dias, um pouco mais de Deus. 


"A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira de quantos se encontram com Jesus. Aqueles que se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo a alegria nasce e renasce sempre (cf. Ex. ap. Evangelii Gaudium, 1). Hoje somos exortados a contemplar a alegria do camponês e do mercador das parábolas. É a alegria de cada um de nós quando descobrimos a proximidade e a presença confortadora de Jesus na nossa vida. Uma presença que transforma o coração e nos abre às necessidades e ao acolhimento dos irmãos, sobretudo dos mais débeis."(Papa Francisco - Ângelus de 30/07/2017)



Bibliografia:

O Catecismo da Igreja Católica e as palavras do Papa Francisco foram consultados em: 
www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p3-intr_1691-1698_po.html

As citações bíblicas foram consultadas em:
www.capuchinhos.org/

Fotos de Rosária Grácio





terça-feira, 29 de agosto de 2017

Sou uma pessoa de primavera ou de outono?



Sou uma pessoa de primavera ou de outono?”. De primavera, que espera a flor, que aguarda o fruto, que se põe à espera do sol que é Jesus, ou de outono, sempre cabisbaixo, amargurado e, como às vezes eu disse, com a cara de pimenta avinagrada.” (Palavras do Papa Francisco no dia 23 de agosto de 2017 na sua audiência geral de quarta-feira).

Esta pergunta do Papa Francisco inquietou-me. 

Nos últimos tempos, temos vivido momentos de instabilidade social, política e até mesmo cultural em todo o mundo.

O ser humano inquieta-se com o futuro e ao mesmo este futuro parece sem esperança...


Se vermos as catástrofes ambientais que inundam o planeta, se prestarmos atenção aos atentados e às perseguições, que mesmo em sociedades ditas civilizadas estão a decorrer, sentimos-nos sem esperança no futuro...

Ter esperança neste mundo de tantas lutas e contradições, parece cada vez mais utópico a cada dia.  Porém, é agora, nestes tempos tão conturbados, em que a esperança é realmente crer naquilo que não se vê.

O que é ter esperança?

"Foi com uma esperança, para além do que se podia esperar, que ele (Abraão) acreditou e assim se tornou pai de muitos povos, conforme o que tinha sido dito: Assim será a tua descendência". (Romanos 4, 18)

A história de Abrão e de muitos outros personagens bíblicos (Jó, Tobias, etc), nos indicam o quanto a esperança tem a força necessária para vencer todas as contrariedades.

A esperança é uma das três virtudes teologais.

"As virtudes teologais fundamentam, animam e caracterizam o agir moral do cristão, informam e vivificam todas as virtudes morais. São infundidas por Deus na alma dos fiéis para os tornar capazes de proceder como filhos seus e assim merecerem a vida eterna. São o penhor da presença e da acção do Espírito Santo nas faculdades do ser humano. São três as virtudes teologais: fé, esperança e caridade".(Cf. 1 Cor 13, 13.). (Catecismo da Igreja Católica nº 1813)


Ter esperança é acreditar, antes mesmo de se ver, ou de acontecer… A esperança reside nesta confiança plena em Deus, mesmo e apesar de quaisquer ventos contrários.

"Tu és a minha esperança, ó Senhor DEUS, e a minha confiança desde a juventude. Em ti me apoio desde o seio materno, desde o ventre materno és o meu protector; és o objecto contínuo do meu louvor.” (Salmos 71(70), 5-6)"

Assim disse o Papa Francisco na Audiência Geral de Quarta-feira no dia 31 de maio de 2017: “A Carta aos Hebreus compara a esperança a uma âncora (cf. 6, 18-19); a esta imagem podemos acrescentar a da vela. Se a âncora é o que dá à barca a segurança e a mantém “na corada” entre as ondas do mar, ao contrário a vela é o que a faz caminhar e avançar sobre as águas. A esperança é deveras como uma vela; ela recolhe o vento do Espírito Santo e transforma-o em força motriz que impele a barca, dependendo das circunstâncias, ao largo ou à beira-mar.


Jesus ensinou-nos a ter esperança, aliás toda a sua vida na terra foi alicerçada na esperança. As bem-aventuranças nascem do Seu coração cheio de esperança.

"A esperança cristã manifesta-se, desde o princípio da pregação de Jesus, no anúncio das bem-aventuranças. As bem-aventuranças elevam a nossa esperança para o céu, como nova terra prometida e traçam-lhe o caminho através das provações que aguardam os discípulos de Jesus. Mas, pelos méritos do mesmo Jesus Cristo e da sua paixão, Deus guarda-nos na «esperança que não engana» (Rm 5, 5). A esperança é «a âncora da alma, inabalável e segura» que penetra [...]«onde entrou Jesus como nosso precursor» (Heb 6, 19-20). É também uma arma que nos protege no combate da salvação: «Revistamo-nos com a couraça da fé e da caridade, com o capacete da esperança da salvação» (1 Ts 5, 8). Proporciona-nos alegria, mesmo no meio da provação: «alegres na esperança, pacientes na tribulação» (Rm 12, 12). Exprime-se e nutre-se na oração, particularmente na oração do Pai-Nosso, resumo de tudo o que a esperança nos faz desejar." (Catecismo da Igreja Católica nº 1820)

A oração do Pai-Nosso traz em si mesma esta confiança em Deus, Nosso Pai, e é esta a esperança que deve nutrir o nosso coração ainda mais nestes tempos conturbados.

Se cremos que Deus é nosso Pai ao rezar o Pai-Nosso, então devemos ter esperança, orando em todo o tempo e lugar, sem nos deixarmos invadir pelas perdas terrenas.


Na passada semana estive a ver o filme da vida de Santa Teresa de Ávila e um dos momentos que mais me impressionou, foi quando no fim da sua vida, Teresa já sem forças, ainda tinha uma grande vontade de fundar conventos com a regra primitiva das carmelitas. Nessa altura, parecia que todo o seu trabalho estava a cair, pois em alguns conventos já não viviam a rigidez da regra. Porém, a esperança destas pessoas santas, é este acreditar naquilo que parece perdido, esperar o florescer do que parece já ter acabado.

"Sede alegres na esperança, pacientes na tribulação, perseverantes na oração." (Romanos 12, 12)

Termino esta reflexão novamente com as palavras de Papa Francisco na sua audiência geral de quarta-feira de 23 de agosto de 2017:


Acreditamos e sabemos que a morte e o ódio não são as últimas palavras pronunciadas sobre a parábola da existência humana. Ser cristão implica uma nova perspetiva: um olhar cheio de esperança. Alguns julgam que a vida encerra todas as suas felicidades na juventude e no passado, e que o viver é uma lenta decadência. Outros ainda acham que as nossas alegrias são apenas episódicas e passageiras, e que na vida dos homens está inscrita a insensatez. Há aqueles que, diante de tantas calamidades, dizem: “Mas a vida não tem sentido. O nosso caminho é a insensatez”. Mas nós cristão não acreditamos nisto. Ao contrário, cremos que no horizonte do homem existe um sol que ilumina para sempre. Acreditamos que os nossos dias mais bonitos ainda devem chegar. Somos pessoas mais de primavera do que de outono. Gostaria de perguntar agora — cada qual responda no seu coração, em silêncio, mas responda — “Sou um homem, uma mulher, um jovem, uma jovem de primavera ou de outono? A minha alma está na primavera ou no outono?”. Cada um responda a si mesmo.” 

Neste momento, convido-te a rezar o Ato de Esperança:


Meu Deus, porque sois omnipotente, infinitamente misericordioso e fidelíssimo às Vossas promessas, eu espero da Vossa bondade que, em atenção aos méritos de Jesus Cristo, nosso Salvador, me dareis a vida eterna e as graças necessárias para a alcançar, como prometestes aos que praticassem as boas obras, que eu me proponho realizar ajudado com o auxílio da Vossa divina graça. Senhor, minha esperança, na qual quero viver e morrer: jamais serei confundido. Ámen.

Bibliografia

Frases bíblicas consultadas em:
www.capuchinhos.org/biblia/index.php?title=2Ts_3


Catecismo da Igreja Católica:

As palavras do Papa Francisco foram consultadas em

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