quarta-feira, 12 de abril de 2017

“Felizes os puros de coração, porque verão a Deus.”



“Felizes os puros de coração, porque verão a Deus.” (Mateus 5, 8)

Estar puro ou não, sempre foi uma questão colocada pelos fariseus e publicanos no tempo de Jesus. Aliás, quando ele curava um leproso, considerado “impuro” no seu tempo, Jesus sempre lhe pedia para ir mostrar-se ao sacerdote no templo. Isso, porquê, era o sacerdote que deveria depois dizer publicamente que aquela pessoa já não se encontrava impura e assim podia voltar novamente ao seio da comunidade judaica.

“Ao descer do monte, seguia-o uma enorme multidão. Foi, então, abordado por um leproso que se prostrou diante dele, dizendo-lhe: «Senhor, se quiseres, podes purificar-me.» Jesus estendeu a mão e tocou-o, dizendo: «Quero, fica purificado!» No mesmo instante, ficou purificado da lepra. Jesus, porém, disse-lhe: «Vê, não o digas a ninguém; mas vai mostrar-te ao sacerdote e apresenta a oferta que Moisés preceituou, para que lhes sirva de testemunho.»" (Mateus 8, 1-4)

Jesus ao curar o leproso, estendeu-lhe a mão e tocou-o. Isto é realmente magnífico porque era Ele que tomava a iniciativa, sem muitas palavras.

Para além disso, a doença da lepra, no tempo de jesus, era incurável e também contagiosa, e por causa disso, percebe-se que o afastar das pessoas doentes do círculo da comunidade, também era no intuito de manter a saúde pública da época.

Doenças como a lepra e outras, podiam dizimar aldeias inteiras ou até cidades.

Isto de impureza e pureza parece ser um tema ultrapassado no nosso tempo. Mas julgo, que não é bem assim!

Hoje em dia, a questão coloca-se ainda, mas de outras formas e vestida de novos conceitos.


Por vezes, até acaba-se por enaltecer mais a impureza do que a pureza. Ou transformar uma na outra, dando-lhe novos conceitos conforme os intervenientes.

Por exemplo, o caso da doença da HIV, conhecida em alguns países como a Sida.

Um artista, quando morre de Sida, é quase que idolatrado como um herói. Lembromo-me do grande cantor Freddie Mercury (QUEEN), cujas as músicas encantaram o mundo. Eu especialmente, até hoje, gosto de ouvi-las. São músicas que sempre irão ultrapassar o tempo e ficarão sempre na minha memória.

No entanto, se falarmos das pessoas, não famosas, mas também infetadas com o HIV, então, tudo muda de figura.

Aliás, ainda hoje, se alguém assumir que está com o HIV, as pessoas, por mais compreensivas que sejam, irão se afastar ou pelo menos, não estar tão perto dessa pessoa.

É facto, também, que mesmo que a referida doença já possa ser controlada com medicamentos, hoje em dia, ainda assim, é um obstáculo social em termos de emprego, por exemplo.

Então, a questão de pureza e impureza, ainda que com novos nomes, atualmente também gera polêmica na sociedade moderna.

Até diria mais: a pureza hoje é muito mais valorizada do que no tempo de Jesus. Porém, esta pureza prende-se ao físico, à aparência e ao modo de vestir.

Nos filmes, essa busca da pureza prende-se à imagem do artista, que tem de ser perfeitamente forte, ágil e muito bonito. Especialmente, as mulheres, estas então, devem ter um aspeto de pura beleza e ao mesmo tempo, serem fortes, ativas e descomplexadas.

Porém, tudo isso é uma pureza aparente, sem qualquer conotação moral. O importante é o que se mostra no exterior. O bem e o mal encontram-se sucessivamente e mudam de patamar, conforme o enredo da história.



Era exatamente esta busca da pureza aparente, que Jesus tanto se debatia com os fariseus e publicanos do seu tempo. Estes, preocupavam-se mais com isso do que fazer efetivamente a Vontade de Deus.

Jesus saiu de novo para a beira-mar. Toda a multidão ia ao seu encontro, e Ele ensinava-os.  Ao passar, viu Levi, filho de Alfeu, sentado no posto de cobrança, e disse-lhe: «Segue-me.» E, levantando-se, ele seguiu Jesus.  Depois, quando se encontrava à mesa em casa dele, muitos cobradores de impostos e pecadores também se puseram à mesma mesa com Jesus e os seus discípulos, pois eram muitos os que o seguiam. Mas os doutores da Lei do partido dos fariseus, vendo-o comer com pecadores e cobradores de impostos, disseram aos discípulos: «Porque é que Ele come com cobradores de impostos e pecadores?» Jesus ouviu isto e respondeu: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os enfermos. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.»"(Marcos 2, 13-17)

Jesus preocupava-se com a impureza interior, e por isso, até perdia a sua paciência, por causa da obsessão que via nos fariseus, pela manutenção da tal pureza exterior:

“Ai de vós, doutores da Lei e fariseus hipócritas, porque limpais o exterior do copo e do prato, quando por dentro estão cheios de rapina e de iniquidade! Fariseu cego! Limpa antes o interior do copo, para que o exterior também fique limpo. Ai de vós, doutores da Lei e fariseus hipócritas, porque sois semelhantes a sepulcros caiados: formosos por fora, mas, por dentro, cheios de ossos de mortos e de toda a espécie de imundície! Assim também vós: por fora pareceis justos aos olhos dos outros, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniquidade." (Mateus 23, 25-28)

Para jesus, a impureza exterior e as consequentes restrições do seu tempo, não eram um obstáculo.

Independente dos rótulos sociais do seu tempo, Jesus nunca deixa de se aproximar e até deixa-se tocar pelos considerados “impuros” do seu tempo:

“Então, uma mulher, que padecia de uma hemorragia há doze anos, aproximou-se dele por trás e tocou-lhe na orla do manto, pois pensava consigo: ‘Se eu, ao menos, tocar nas suas vestes, ficarei curada.’ Jesus voltou-se e, ao vê-la, disse-lhe: «Filha, tem confiança, a tua fé te salvou.» E, naquele mesmo instante, a mulher ficou curada." (Mateus 9,20-22)



Jesus ousa até atravessar as fronteiras da sua identidade judaica e vai ao encontro dos estrangeiros ou daqueles que eram considerados excluídos no seu tempo, devido a crenças, ideologias ou opiniões contrárias:

“Entretanto, chegou certa mulher samaritana para tirar água. Disse-lhe Jesus: «Dá-me de beber.» Os seus discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos. Disse-lhe então a samaritana: «Como é que Tu, sendo judeu, me pedes de beber a mim que sou samaritana?» É que os judeus não se dão bem com os samaritanos. Respondeu-lhe Jesus: «Se conhecesses o dom que Deus tem para dar e quem é que te diz: ‘dá-me de beber’, tu é que lhe pedirias, e Ele havia de dar-te água viva!»" (João 4, 7-10).

Jesus, sempre foi bastante claro, acerca do que exatamente e efetivamente mancha o ser humano e o torna impuro:

“Não sabeis que tudo aquilo que entra pela boca passa para o ventre e é expelido em lugar próprio? Mas o que sai da boca provém do coração; e é isso que torna o homem impuro. Do coração procedem as más intenções, os assassínios, os adultérios, as prostituições, os roubos, os falsos testemunhos e as blasfémias. É isto que torna o homem impuro. Mas comer com as mãos por lavar não torna o homem impuro.»" (Mateus 15, 17-20)

Nos nossos tempos, esta obsessão pelo exterior ainda se mantém.

As “limpezas exteriores” mostram-se atualmente na sua plenitude. 

Um artista, quando faz uma apresentação pública, tem de estar no seu máximo perfeito. Basta uma camisola meio suja, uma posição mais embaraçosa ou até um cabelo despenteado para que as revistas publiquem a sua imagem como desleixo ou falta de estilo… Se fazem qualquer gesto, por mínimo que seja, nem que seja um desabafo momentâneo, o público cai-lhe logo em cima. Não lhes é permitido qualquer fragilidade… Não é à toa, que alguns deles encharcam-se de drogas ou bebidas, ou então suicidam-se.

Por outro lado, a alguns és-lhe dado o silêncio e o esquecimento: os mendigos, as crianças de rua, o pobre que vai aos caixotes de lixo buscar a comida, o trabalhador, cujo o salário insuficiente obriga-o a uma pobreza escondida na solidão do seu apartamento, o deficiente físico ao qual é negado as oportunidades de emprego e as ajudas técnicas para manter a sua autonomia, ao doente crónico que não consegue pagar o remédio que lhe alivia ou cura  a doença, por ser muito caro e para além das suas possibilidades, etc.

Este condicionalismo social, no qual deixa-se todas estas pessoas, são como os leprosos, que no tempo de Jesus, estavam restritos, escondidos e reservados ao anonimato ou à sua casta social.

Este lado impuro da sociedade é a chamada “periferia existencial”, a que o Papa Francisco refere muitas vezes em suas declarações públicas. Um destes momentos, foi em 25 de agosto de 2014, na sua mensagem ao 35.° Encontro pela Amizade entre os Povos, promovido pelo movimento Comunhão e Libertação. O tema escolhido para o referido ano era: ‘Rumo às periferias do mundo e da existência’. Sim, porque segundo o Papa Francisco, “as periferias não são apenas locais, mas também, e acima de tudo, feitas por pessoas”. O Papa Francisco convida-nos a ser “uma Igreja presente nas “periferias da sociedade atual”.


As “periferias” são feitas por pessoas, e mesmo que aparentemente estejam completamente inseridas na sociedade, elas permanecem marginalizadas em um contexto psicológico ou social, pela extrema pobreza ou pela obsessão ao belo ou perfeito, que lhes é exigida.

 “Jesus chamou, depois, a multidão para junto de si e disse-lhes: «Escutai e tratai de compreender! Não é aquilo que entra pela boca que torna o homem impuro; o que sai da boca é que torna o homem impuro.» Os discípulos aproximaram-se dele e disseram-lhe: «Sabes que os fariseus ficaram escandalizados, por te ouvirem falar assim?»" (Mateus 15, 10-12)

Sim, estas palavras escandalizavam a todos que seguiam as tradições à risca, porém, ainda hoje, continuam a escandalizar. Este escândalo foi um dos motivos que levou Jesus à morte no seu tempo, e ainda hoje leva os cristãos do nosso tempo a serem perseguidos e até mortos.

Porém, toda esta novidade que Jesus trouxe, revoluciona e nos enche de entusiasmo, porque ainda hoje nos chama a atenção, assim como aconteceu com Zaqueu…

“Tendo entrado em Jericó, Jesus atravessava a cidade. Vivia ali um homem rico, chamado Zaqueu, que era chefe de cobradores de impostos. Procurava ver Jesus e não podia, por causa da multidão, pois era de pequena estatura. Correndo à frente, subiu a um sicómoro para o ver, porque Ele devia passar por ali. Quando chegou àquele local, Jesus levantou os olhos e disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa.» Ele desceu imediatamente e acolheu Jesus, cheio de alegria. Ao verem aquilo, murmuravam todos entre si, dizendo que tinha ido hospedar-se em casa de um pecador. Zaqueu, de pé, disse ao Senhor: «Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém em qualquer coisa, vou restituir-lhe quatro vezes mais.» Jesus disse-lhe: «Hoje veio a salvação a esta casa, por este ser também filho de Abraão; pois, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido.»" (Lucas 19, 1-10)


Por isso, há que continuar a semear as palavras de Jesus por todos, como semente que poderá despertar nos corações daqueles que até julgávamos perdidos.

O ser humano é frágil. Ele pode buscar a perfeição, aparentar que é o mais puro do mundo, porém, este percurso de pureza tem de começar a partir de dentro.

Para Deus, o mais importante é o que somos, e não aquilo que aparentemos ser.

No nºs. 2518 e 2519 do Catecismo da Igreja Católica encontrei um belíssimo resumo desta desafiante proposta de Jesus:  

“A sexta bem-aventurança proclama: «Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus» (Mt 5, 8). Os «puros de coração» são os que puseram a inteligência e a vontade de acordo com as exigências da santidade de Deus, principalmente em três domínios: a caridade (Cf. 1 Ts 4, 3-9: 2 Tm 2, 22.); a castidade ou rectidão sexual (Cf. 1Ts 4, 7; Cl 3, 5; Ef 4, 19); o amor da verdade e a ortodoxia da fé (Cf. Tt 1, 15; 1 Tm 1, 3-4; 2 Tm 2, 23-26.), Existe um nexo entre a pureza do coração, do corpo e da fé: Os fiéis devem crer nos artigos do Credo, «para que, crendo, obedeçam a Deus; obedecendo a Deus, vivam como deve ser; vivendo como deve ser, purifiquem o seu coração; e purificando o seu coração, compreendam aquilo em que crêem» (Santo Agostinho, De fide et symbolo, 10, 25: CSEL 25, 32 (PL 40, 196). Aos «puros de coração» é prometido que verão a Deus face a face e serão semelhantes a Ele (Cf. 1 Cor 13, 12; l Jo 3. 2.). A pureza do coração é condição prévia para a visão. Já desde agora, permite-nos ver segundo Deus, aceitar o outro como um «próximo» e compreender o corpo humano, o nosso e o do próximo, como um templo do Espírito Santo, uma manifestação da beleza divina.

Jesus, no entanto, alertava que se conquistássemos a pureza, esta devia ser mantida:

“«Quando um espírito maligno sai de um homem, vagueia por lugares áridos em busca de repouso; e, não o encontrando, diz: ‘Vou voltar para minha casa, de onde saí.’ Ao chegar, encontra-a varrida e arrumada. Vai, então, e toma consigo outros sete espíritos piores do que ele; e, entrando, instalam-se ali. E o estado final daquele homem torna-se pior do que o primeiro.»”(Lucas 11, 24-26)


Apesar de Jesus se preocupar com a pureza interior, na sua última ceia com os seus discípulos, resolveu lavar os seus pés:

“Enquanto celebravam a ceia, Jesus, sabendo perfeitamente que o Pai tudo lhe pusera nas mãos, e que saíra de Deus e para Deus voltava, levantou-se da mesa, tirou o manto, tomou uma toalha e atou-a à cintura. Depois deitou água na bacia e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que atara à cintura. Chegou, pois, a Simão Pedro. Este disse-lhe: «Senhor, Tu é que me lavas os pés?» Jesus respondeu-lhe: «O que Eu estou a fazer tu não o entendes por agora, mas hás-de compreendê-lo depois.» Disse-lhe Pedro: «Não! Tu nunca me hás-de lavar os pés!» Replicou-lhe Jesus: «Se Eu não te lavar, nada terás a haver comigo.» Disse-lhe, então, Simão Pedro: «Ó Senhor! Não só os pés, mas também as mãos e a cabeça!» Respondeu-lhe Jesus: «Quem tomou banho não precisa de lavar senão os pés, pois está todo limpo. E vós estais limpos, mas não todos.» Ele bem sabia quem o ia entregar; por isso é que lhe disse: ‘Nem todos estais limpos’. Depois de lhes ter lavado os pés e de ter posto o manto, voltou a sentar-se à mesa e disse-lhes: «Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-me ‘o Mestre’ e ‘o Senhor’, e dizeis bem, porque o sou. Ora, se Eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Na verdade, dei-vos exemplo para que, assim como Eu fiz, vós façais também. Em verdade, em verdade vos digo, não é o servo mais do que o seu Senhor, nem o enviado mais do que aquele que o envia. Uma vez que sabeis isto, sereis felizes se o puserdes em prática.”(João 13, 3-17)

Jesus, mais uma vez, manifesta a sua imensa sabedoria, ao ensinar aos seus discípulos uma mensagem muito especial, que vai para além do simples banhar dos pés antes da ceia. 

Jesus, o Mestre, faz-se servo… 


Jesus ensina-me que só serei verdadeiramente pura se for humilde para obedecer a Deus, independentemente do que os outros digam ou pensam.

A pureza interior nasce dessa humildade, de nos considerarmos frágeis, e por isso, não sabemos nada e só em Deus, podemos atingir a plenitude da perfeição interior.

Na Quinta-Feira Santa, este gesto de lavar os pés, repete-se nas celebrações litúrgicas católicas, em todo o mundo.

O Papa Francisco vai presidir a celebração de «lava-pés» com alguns presos na Casa de Reclusão de Paliano, no dia 13 de abril de 2017, Quinta-feira Santa, na Província de Frosinone e Diocese de Palestrina, a sul de Roma. Esta celebração e visita do Papa é “estritamente privada”.

Não é a primeira vez que o nosso amado Papa Francisco ensina-me esta lição de humildade. E ainda mais, oferece-me a forma de o fazer: sem ser publicamente pois a verdadeira humildade não pode ter aplausos.

A humildade é uma flor rara que nasce do anonimato de um coração limpo e purificado no Amor Pleno de Deus.

Louvado Seja Deus!




BIBLIOGRAFIA

Passagens bíblicas retiradas do site www.capuchinhos.org

Catecismo da Igreja católica consultado em  www.vatican.va/archive/cathechism_po/


Notícias do Papa Francisco consultadas em:



Pinturas de Gráccio Caetano  - www.gracciocaetano.com




domingo, 26 de março de 2017

Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.



Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.” (Mateus 5, 7)

A palavra “Misericórdia” junta etimologicamente duas palavras em latim: “miseratio” e “cordis”.

“Miseratio” quer dizer compaixão. “Cordis” quer dizer “coração”.

A misericórdia nasce de um coração que tem compaixão.

A compaixão é um sentimento que está acima de qualquer sentimento de pena. 

Ter pena de alguém não quer dizer que se tenha compaixão. 

Não basta que se tenha pena de alguém para se demonstrar que se é misericordioso.

A misericórdia brota de um coração que está assim compadecido profundamente por algo ou por alguém. 

Esta misericórdia cumpre-se quando manifestamos concretamente o amor por quem nos é próximo.

Penso que a misericórdia é uma das maneiras de cumprir-se plenamente os dois grandes mandamentos ensinados por Jesus:

“«Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?» Jesus disse-lhe: Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente. Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.»”(Mateus 22, 36-40)

Este “próximo” quem é, afinal?

Sim, se eu devo amar a Deus e ao próximo como a mim mesmo, então devo saber quem é este próximo!

Jesus dá-me essa resposta com a parábola do bom samaritano. 

Sim, esta parábola já a sei quase de cor, mas será que a percebo intimamente?

Jesus contou esta parábola no seguimento de uma pergunta:

- Quem é o meu próximo?


Quem fez esta pergunta foi um doutor da lei que supostamente devia saber da resposta. Jesus, sabia bem o que havia no coração daquele doutor da lei pelo que devia responder a esta pergunta com a sabedoria de Deus.

Tomando a palavra, Jesus respondeu:«Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto. Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo. Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante. Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: ‘Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar.’ Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?» Respondeu: «O que usou de misericórdia para com ele.» Jesus retorquiu: «Vai e faz tu também o mesmo.» (Lucas 10, 30-37)

Jesus ensina-me com uma pequena história como devo efetivamente ser misericordiosa. 

Ele conta a parábola do Bom Samaritano que tantas vezes escutei e que assim meditando mais intimamente no meu coração, descobri que ainda não tinha compreendido o que era ser misericordioso.

O bom samaritano ao “usar de misericórdia” praticou gestos concretos:
  • Parou a sua viagem
  • chegou perto de quem sofria para ver
  • encheu-se de compaixão
  • aproximou-se,
  • ligou as feridas da pessoa ferida,
  • deitou nas feridas azeite e vinho,
  • colocou a pessoa ferida sobre a sua própria montada,
  • levou a pessoa ferida para uma estalagem
  • cuidou da pessoa ferida
  • No dia seguinte, pagou ao estalajadeiro.
  • Pediu ao estalajadeiro: - Trata bem dele e, …
  • … o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar.

Se verificar bem ao pormenor todos estes doze passos dados pelo bom samaritano, chego à conclusão que agir de misericórdia obriga a fazer mais do que muito sentir.

Sentir é muito fácil. O sentimento da piedade é muito fácil de se sentir. 

Facilmente todos se comovem com as situações dolorosas dos outros.

Porém, logo após chorarmos algumas lágrimas, seguimos o nosso caminho assim como fez o sacerdote e o levita que já tinham passado por aquele caminho antes do samaritano.

Sentir pena é muito fácil, e realmente é o que mais fazemos diante de notícias que vemos diariamente nas redes sociais e nos programas televisivos.

Escrever uma frase de incentivo no Facebook é fácil.

Emocionar-se e comentar com os outros que aquela situação é muito dolorosa, é fácil!

Mas, e depois?



A misericórdia começa nesse "depois" dessa tal piedade que demonstrarmos com as palavras.

Se continuo o meu caminho, como se nada tivesse acontecido, nada mudou, nem nada alterou na situação que tanto disse ser lamentável.

Jesus não idealiza apenas os seus ensinamentos, filosofando sobre a natureza boa ou má das pessoas ou dos acontecimentos.

Dizer que aquilo está mal, não adianta nada!

Fazer algo para mudar aquela situação, isso sim, altera alguma coisa!

O próprio doutor da lei disse que o próximo daquela pessoa que precisa de ajuda é “Aquele que usou de misericórdia para com ele”

O termo utilizado é “usou” e não “usará” ou “vai usar”. Isso porque a misericórdia não deve ser uma suposição, um desejo lindo ou uma vontade bem intencionada que fica apenas no coração e a partir daí morre. 

A misericórdia não é uma opinião ou uma vontade, mas sim uma ação.

Ouvindo a resposta do próprio doutor da lei acerca de quem era o próximo, Jesus seguidamente dá-lhe uma ordem bem concreta: “- Vai, e faz tu o mesmo”. (São Lucas 10, 37)

A misericórdia é esta ação concreta do amor que, perdoando, transforma e muda a vida. É assim que se manifesta o seu mistério divino. Deus é misericordioso (cf. Ex 34, 6), a sua misericórdia é eterna (cf. Sal 136/135), de geração em geração abraça cada pessoa que confia n’Ele e transforma-a, dando-lhe a sua própria vida.” (Carta Apostólica -  Misericordia et misera – do Papa Francisco – 20/11/2016)

A maior e a melhor misericórdia que devo imitar é a misericórdia do Pai, nosso Deus. 

Esta misericórdia do Pai foi-me ensinada por Jesus: Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso” (S. Lucas 6,36). Aliás, este versículo evangélico foi o tema do Ano Santo Jubileu da Misericórdia que decorreu de 8 de dezembro de 2015 a 20 de novembro de 2016.

Vários salmos glorificam também esta misericórdia de Deus. 

É maravilhoso ler estes versículos em que sou mergulhada num sentimento de grande benignidade que vem da parte de Deus que me ama como Pai.

"Porque Tu, Senhor, és bom e indulgente, cheio de misericórdia para quantos te invocam". (Salmo 86(85), 5)

"O SENHOR é misericordioso e compassivo, é paciente e cheio de amor." (Salmo 103(102), 8)

"O SENHOR é bondoso e compassivo, o nosso Deus é misericordioso." (Salmos 116 (114-115), 5)

"Louvai o SENHOR, porque Ele é bom, porque o seu amor é eterno." (Salmos 118(117), 29)

Lendo estes versículos sinto-me pequenina diante deste amor de Deus que preciso imitar na minha vida.

“É uma porta estreita, não porque seja opressiva, mas porque nos pede para restringirmos e contermos o nosso orgulho e o nosso medo, para nos abrirmos com coração humilde e cheio de confiança a Ele [Deus], reconhecendo-nos como pecadores, necessitados do seu perdão”, (Papa Francisco- 21/08/2016)

Será que consigo entrar nesta porta estreita de ser misericordiosa como  Deus, meu Divino Pai?



Penso que o próprio bom samaritano ensina-me os pequenos passos que devemos dar neste "agir com misericórdia". 

Realmente, são passos pequeninos, porém, um após outro, vou construindo uma verdadeira ação de misericórdia.

Assim sendo, vou rever os passos dados pelo bom samaritano, aprofundando-os em pormenor cada um deles:

1º Passo: Parar a minha viagem - isso significa parar o que nos ocupa naquele momento para prestarmos um pouco da nossa atenção para aquela situação que julgamos ser injusta e/ou digna de piedade.

2º Passo: chegar perto para ver – É preciso que saiamos da nossa zona de conforto e irmos ou tentarmos saber bem de perto o que está ali a acontecer… Aliás, é preciso que filtremos a situação apresentada para que possamos perceber se a mesma é real ou fingimento. Infelizmente, nem todos usam da verdade. Por isso, o bom samaritano chegou perto para ver exatamente o estado daquele que sofria.

3º Passo: encher-se de compaixão – Nesta altura é o coração que se enche de compaixão para que possa estar profundamente sensibilizado por aquela situação e verdadeiramente motivado para agir com misericórdia.

4º Passo: aproximar-se – Este passo obriga a um gesto bem mais próximo do que o 2º passo dado. Neste momento, o aproximar-se é o mesmo que dizer: - Aqui estou, de que precisas?

5º Passo: ligar as feridas de quem sofre – Quem liga as feridas, tenta de alguma forma impedir que mais sangue seja derramado. As feridas, enquanto estiverem abertas, vertem sangue. Ao ligar as feridas, impede-se que aquele mal esteja ainda a acontecer. Com esta ação concreta impedimos que o mal, seja ele qual for, continue a agir e a se realizar naquela pessoa ou naquela situação.

6º Passo: deitar nas feridas azeite e vinho – No tempo de Jesus colocar azeite e vinho nas feridas era uma forma de fazer um tratamento urgente em dado momento para iniciar a cura das mesmas. Esta ação traduz-se em gestos concretos que permitem que aquela pessoa ou situação comece a curar e/ou a restabelecer-se.

7º Passo: colocar a pessoa ferida sobre a nossa própria montada – Com este gesto concreto, o bom samaritano viu que o que já tinha feito ainda não era o suficiente. As feridas eram graves e muito profundas pelo que precisavam de um tratamento mais demorado e em condições mais apropriadas para o restabelecimento. Ao colocar a pessoa sobre a sua própria montada, é o mesmo que levanta-la, tirando-a da situação de abandono, acompanhando-a e levando-a para algum lugar onde concretamente fosse melhor ajudada. O bom samaritano já tinha feito o que ali podia ser feito. Por vezes, é preciso ir mais além pois existem lugares e pessoas que podem ajudar com meios técnicos que estão para além de um caminho de estrada.

8º Passo: levar a pessoa ferida para uma estalagem – Esta estalagem é o lugar que por vezes, já existe ou até pode ser criado para ajudar aquele tipo de sofrimento e/ou aquelas situações de injustiça. Existem inúmeras instituições e associações que são criadas assim, a partir de uma pessoa ferida, de uma situação injusta ou de uma calamidade. A estalagem é um lugar onde para além do bom samaritano, outros tantos bons samaritanos trabalham em conjunto na concretização de curar aquela pessoa ou resolver aquela situação injusta.

9º Passo: cuidar da pessoa ferida – O bom samaritano ao levar o ferido para a estalagem não “lavou as mãos” daquela situação. Antes, pelo contrário, ele se hospedou na própria estalagem e continuou a cuidar da pessoa ferida. Por vezes, deixamos a resolução dos problemas nas costas das instituições ou associações humanitárias e depois continuamos a nossa vida. A misericórdia concreta revela-se em fazer parte deste trabalho ao lado e talvez até com a própria instituição ou associação que acolheu a pessoa a necessitar de auxílio.

10º Passo: No dia seguinte, pagou ao estalajadeiro – Aqui entra a parte da ajuda monetária que deve também unir-se às ações. Pagar ao estalajadeiro é uma ação concreta de dizer que também o ajudar nas despesas faz parte também da ação de misericórdia. Ajudar com doações as Instituições e associações que cuidam das pessoas que precisam de ajuda também faz parte de quem efetivamente é misericordioso.

11ª Passo: Pediu ao estalajadeiro: “- Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar.” – Aqui há um desdobramento que no passo seguinte irei me debruçar melhor. No entanto, o passo aqui em destaque é o pedir ao estalajadeiro que trate bem da pessoa ferida. Pedir não é fácil. Quem pede, sujeita-se a ser humilhado. Ainda mais se pedimos por outra pessoa, então mais humilhante é, pois o beneficio se o houver, não irá reverter para a pessoa que o pediu. Neste passo existe a ação concreta de misericórdia que é cumprida quando pedimos a alguém ou a alguma instituição que nos ajude em dada tarefa que por vários motivos não poderemos concretizar até o fim. O bom samaritano teria de continuar o seu caminho, atendendo às suas necessidades pessoais. Por vezes, a nossa vida diária não permite que prossigamos em tal serviço caritativo a tempo inteiro. Nem todos podem se dedicar todo o seu tempo e vida a um ato de misericórdia mais demorado e trabalhado ao longo do tempo. Nem todas as situações resolvem-se num dia. Por vezes, há situações em que o processo de cura ou de reabilitação exige um trabalho de dias, meses, anos e até de uma vida inteira. Felizmente, já existem pessoas que optam por se dedicar a sua vida a estes serviços e por vezes de forma gratuita e voluntária. Porém, nem sempre se pode fazer-se tudo e os meios humanos e técnicos das instituições não são suficientes para corresponder a tantas necessidades. Temos de pedir por quem precisa de ajuda e motivar outros que nos ajudem nesta missão de misericórdia.

12º Passo:  comprometer-se com a obra de misericórdia “- …  e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar.“ – Aqui há uma promessa.” A pessoa misericordiosa compromete-se a voltar para continuar a ajudar nem que seja financeiramente. O verdadeiro bom samaritano acompanha de perto o seu ato de misericórdia, fazendo múltiplos gestos contínuos de misericórdia. E se não puder dedicar-se a tempo inteiro, ajuda e continua a ajudar a instituição ou as pessoas que se dedicam a tempo inteiro a certas obras sociais que se dedicam às obras de misericórdia. Por vezes, fazemos uma obra de misericórdia e julgamos que mais nada há a fazer. Em muitos casos, a chaga social e a injustiça exige um esforço contínuo que vai para além de uma simples ação. É preciso persistir e não se deixar ficar num bom momento de misericórdia perdido no tempo da nossa história. Quem realmente usa de misericórdia, compromete-se.

São doze passos que curiosamente é um número bastante significativo usado muitas vezes ao longo da Bíblia. Jesus escolheu doze apóstolos e são doze, as tribos de Israel.

Os doze passos do Bom Samaritano complementam-se e são assim como que pequenos degraus que o levarão a chegar ao patamar da verdadeira misericórdia.

Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.” (Mateus 5, 7)



Jesus diz que quem for misericordioso alcançará misericórdia. Esta promessa de Jesus é ousada, mas profundamente verdadeira.

Quem pratica a misericórdia alcança a misericórdia não só para os outros mas também para si mesmo. A nossa ação concreta de misericórdia faz com que haja de forma real uma verdadeira misericórdia.

Este alcançar da misericórdia, por vezes está conectado ao facto de também, haver uma paga, nem que seja da parte de Deus para os nossos atos de misericórdia.

Sim, Deus sempre retribuirá todas as nossas ações de bem muito para além da intensidade das mesmas.

Mas, independentemente disso, Jesus nos promete algo ainda melhor.

Quando praticamos a misericórdia, esta se concretiza à nossa volta naquela situação que antes era uma ferida a sangrar e agora está restabelecida ou a restabelecer.

E a sociedade assim vai ficando com mais justiça e paz que irá também nos abraçar e a todos que nos rodeiam.

É como um plantar de uma árvore que dará sombra e fruto não só para quem a plantou, mas para todos que por aquela árvore passarem.

Os atos de misericórdia são assim. 

O catecismo da Igreja católica no seu nº. 2447, indica-me as sete obras de misericórdia espirituais e as sete obras de misericórdia corporais que devem acompanhar a minha vida cristã:

“As obras de misericórdia são as acções caridosas pelas quais vamos em ajuda do nosso próximo, nas suas necessidades corporais e espirituais (Cf. Is 58, 6-7; Heb 13, 3). Instruir, aconselhar, consolar, confortar, são obras de misericórdia espirituais, como perdoar e suportar com paciência. As obras de misericórdia corporais consistem nomeadamente em dar de comer a quem tem fome, albergar quem não tem tecto, vestir os nus, visitar os doentes e os presos, sepultar os mortos (Cf. Mt 25, 31-46). Entre estes gestos, a esmola dada aos pobres (Cf. Tb 4, 5-11; Sir 17, 18) é um dos principais testemunhos da caridade fraterna e também uma prática de justiça que agrada a Deus (Cf. Mt 6, 2-4): «Quem tem duas túnicas reparta com quem não tem nenhuma, e quem tem mantimentos, faça o mesmo» (Lc 3, 11). «Dai antes de esmola do que possuis, e tudo para vós ficará limpo» (Lc 11, 41). «Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem do alimento quotidiano, e um de vós lhe disser: "Ide em paz; tratai de vos aquecer e de matar a fome", mas não lhes der o que é necessário para o corpo, de que lhes aproveitará?» (Tg 2, 15-16) (Cf. 1 Jo 3, 17).

Em resumo eis as quatorze obras de misericórdia:

As sete obras de misericórdia corporais são:
  • Dar de comer a quem tem fome.
  • Dar de beber a quem tem sede.
  • Vestir os nus.
  • Dar pousada aos peregrinos.
  • Visitar os enfermos.
  • Visitar os presos.
  • Enterrar os mortos.

As sete obras de misericórdia espirituais são:
  • Dar bons conselhos.
  • Ensinar os ignorantes.
  • Corrigir os que erram.
  • Consolar os tristes.
  • Perdoar as injúrias.
  • Suportar com paciência as fraquezas do nosso próximo.
  • Rezar a Deus por vivos e defuntos.

Em conclusão, Jesus deixa-me ainda esta proposta acerca da misericórdia:

“Ide aprender o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício. Porque Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores." (São Mateus 9, 13)



Bibliografia

Etimologia da palavra misericórdia - https://pt.wikipedia.org/wiki/Miseric%C3%B3rdia

Citações bíblicas retiradas da tradução da Bíblia dos capuchinhos em www.capuchinhos.org/biblia/

Citações do Catecismo da Igreja católica retiradas do site  - www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/prima-pagina-cic_po.html

As obras de misericórdia foram retiradas do site www.ordem-do-carmo.pt/index.php/oracoes/824-sobre-a-misericordia.html


Citações do Papa Francisco consultadas nos seguintes sites:




As imagens são reproduções de pinturas de Rosária Vilela - Atelier Gráccio Caetano com o site  www.gracciocaetano.com

domingo, 5 de março de 2017

“Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.”



“Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.” (Mateus 5, 6)

O que é "justiça"?

Segundo o vocabulário da língua portuguesa, justiça significa “virtude moral que inspira o respeito pelos direitos de cada pessoa e a atribuição do que é devido a cada um; equidade”.

A palavra “equidade” é uma palavra muito usada em direito civil. A “equidade” é sinónimo de imparcialidade, igualdade, justiça

Justitia est constans et perpetua voluntas jus suum cuique tribuendi”, ou seja, a "justiça é a constante e perpétua vontade de dar a cada um o que lhe é devido".

Ter uma “constante e perpétua vontade” quer dizer que não pode haver a justiça nos corações dos que são instáveis em sua vontade.

A justiça deve ser e é sempre a mesma ao longo da história e do tempo.



“ A justiça é a virtude moral que consiste na constante e firme vontade de dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido. A justiça para com Deus chama-se «virtude da religião». Para com os homens, a justiça leva a respeitar os direitos de cada qual e a estabelecer, nas relações humanas, a harmonia que promove a equidade em relação às pessoas e ao bem comum. O homem justo, tantas vezes evocado nos livros santos, distingue-se pela rectidão habitual dos seus pensamentos e da sua conduta para com o próximo. «Não cometerás injustiças nos julgamentos. Não favorecerás o pobre, nem serás complacente para com os poderosos. Julgarás o teu próximo com imparcialidade» (Lv 19, 15). «Senhores, dai aos vossos escravos o que é justo e equitativo, considerando que também vós tendes um Senhor no céu»(Cl 4, 1).” (Catecismo da Igreja Católica nº 1807)

Quão difícil é interpretar esta “justiça moral” no nosso tempo! 

Aliás, mais ainda difícil, esclarecer com a história humana, o que é a justiça.

As leis humanas moldam-se e mudam-se consoante os tempos e as vontades.

Por isso, a justiça humana foi e é frágil e quebrou-se fácil ao longo da história.

Porquê a justiça humana mostra-se assim?


Humanamente somos imperfeitos. Buscamos a perfeição, mas somos todos, de alguma maneira imperfeitos.

E para além disso, a razão humana está em constante aprendizagem com a experiência ao longo do tempo. E ainda temos de colocar o peso dos desejos e dos conceitos que vão se apresentando na construção das sociedades humanas.

Porém Jesus fala-me da “fome e sede de justiça” que deve haver para que realmente haja a justiça.

Ter “fome e sede de Justiça” é ter uma vontade intrínseca de buscar a justiça em tudo, seja pequeno ou grande, rico ou pobre, são ou doente, perfeito ou imperfeito…

Todos e tudo devem estar mergulhados em justiça.

E a “fome e sede de justiça” inunda os corações dos que amam a Deus.

Segundo a Igreja Católica, a justiça é considerada uma das virtudes cardeais:

Há quatro virtudes que desempenham um papel de charneira. Por isso, se chamam «cardeais»; todas as outras se agrupam em torno delas. São: a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança. «Se alguém ama a justiça, o fruto dos seus trabalhos são as virtudes, porque ela ensina a temperança e a prudência, a justiça e a fortaleza» (Sb 8, 7). Com estes ou outros nomes, estas virtudes são louvadas em numerosas passagens da Sagrada Escritura.” (Catecismo da Igreja Católica nº 1805)

Jesus promete que todos os que ansiarem de pleno coração pela justiça, serão felizes porque serão saciados.

Na nossa sociedade, esta promessa parece-me utópica…

Quantas e quantas pessoas perseguem o que é justo e morrem, por vezes, sem conhecer a justiça em sua vida.

Muitos dizem que não há justiça na terra enquanto houver tantas disparidades sociais, onde alguns têm direito a tudo e outros a quase nada.

Mas é aí que Jesus nos toca a ferida…

Afinal, qual é a minha "justiça"? Qual é a minha vontade de justiça que julgo ser a "justiça"?

Falar de bens que uns têm e outros não, é exatamente a justiça humana falível que tanto se veste e despe de valores e medidas ao longo do tempo. Sim, porque se vou medir a justiça com coisas materiais que uns têm e outros não, acabo por minar a justiça.

A verdadeira justiça não é um conceito, mas um valor moral que deve estar dentro da pessoa humana. E este valor não pode se agarrar às modas de cada tempo.

Jesus dá-me uma pista do que é a verdadeira justiça:
"Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo". (São Mateus 6, 33)


A justiça de Jesus está em buscar primeiramente o Reino e Deus e depois todo o resto virá por acréscimo.

O Reino de Deus que Jesus viveu e pregou em sua vida está presente desde a Manjedoura do seu nascimento até a cruz da sua morte. Humanamente, a vida de Jesus foi injusta. Porém, Jesus abre uma porta de esperança com a sua Ressurreição. Ele diz-me que a justiça humana é muito pequenina diante da justiça de Deus e que esta é por vezes, incompreensível aos meus olhos humanos.

Jesus ressuscitado é a vitória da verdadeira justiça.

Jesus olha-me nos olhos e diz-me para ver a sua vida, e ali ver o que é a justiça.

Jesus sempre teve muita "fome e a sede de justiça". Nem a morte acabou com esta sua vontade de realizar a justiça entre nós.

E o que Jesus fez, apenas o fez porque Ele conhecia o Pai e a sua infinita misericórdia.



É nesta misericórdia de Deus que o Papa Francisco ensina-me sobre a verdadeira justiça.

Na Audiência Geral de 3 de Fevereiro de 2016, o Papa Francisco fala-me que uma verdadeira justiça está dependente do perdão e da misericórdia: “Certamente, é um caminho difícil. Requer que quem recebeu a ofensa esteja pronto a perdoar e deseje a salvação e o bem de quem o ofendeu. Mas só assim a justiça pode triunfar, porque se o culpado reconhecer o mal praticado e deixar de o fazer, eis que o mal já não existe, e aquele que era injusto torna-se justo, porque foi perdoado e ajudado a reencontrar a via do bem. E isto tem a ver precisamente com o perdão, com a misericórdia.

Esta justiça baseada na misericórdia é complicada de se realizar enquanto as sociedades humanas acharem que ao condenar, estão a fazer justiça.

Dar ao injusto uma condenação sem mostrar-lhe qualquer valor moral é mais fácil, mas ineficaz.

Talvez, por causa disso, ainda as sociedades humanas continuem sedentas e esfomeadas de justiça, apesar de tantos códigos e leis que as inundam sem, contudo, sacia-las, tornando-as infelizes.  


Bibliografia:

A frase em latim e sua tradução foi retirada do Breviário de Latim/Português – Virgílio Queirós e Sofia Miranda – Quid Juris Sociedade Editora

Versículos bíblicos consultados em http://www.capuchinhos.org/biblia/

A Audiência do papa Francisco de 03/02/016 foi consultada em
http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2016/documents/papa-francesco_20160203_udienza-generale.html

O Significado da palavra “justiça” foi consultado em
justiça in Dicionário infopédia da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2017. [consult. 2017-02-26 18:59:42]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/justiça

Imagens - obras originais de Rosária Vilela intituladas:
"Justiça" - óleo sobre tela 
"Nossa Senhora da Piedade" - óleo sobre tela 
"Sagrado Coração de Jesus" - tinta acrílica sobre tela


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Felizes os mansos, porque possuirão a terra...




Felizes os mansos, porque possuirão a terra”. (Mateus 5, 5)

Esta bem-aventurança de Jesus embaraça-me porque afinal, nos tempos hodiernos, ser manso diante das exigências deste mundo acarreta-nos a derrota.

Nos negócios, quem não for exigente e persuasivo, acaba por minar os seus empreendimentos pois outros o farão de uma forma ardilosa… 

Diante de um mundo de feroz concorrência como poderei compreender esta frase de Jesus.

Dizem-nos que “dos fracos não reza a história”. Porém a mansidão não é o mesmo que fraqueza.

Ser fraco nas batalhas da vida é o prenúncio de derrota certa.

No entanto, ser manso é algo completamente diferente.

No dicionário encontrei alguns sinónimos da palavra manso:”génio brando; calmo; sossegado, pacífico”…

A mansidão é a virtude dos mansos… E aqui mergulha-se na serenidade, na doçura e na bondade.

Jesus, ensina-me mais uma vez para ouvir as suas palavras com o coração e não com a razão.

Segundo o Catecismo da Igreja Católica, a mansidão é uma das perfeições que o Espírito Santo forma em nós. (Catecismo da Igreja Católica nº 1832)

Jesus, Ele próprio, se denomina manso, com esta frase belíssima que nos cura o coração:

Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.” (São Mateus 11, 28-30)

Jesus se faz manso por nós e convida-me a saborear esta bem-aventurança no coração de forma plena e livre de preconceitos.

A mansidão e a humildade vestem os corações dos maiores santos.

Um exemplo, é São Francisco de Assis cuja a conversão nasceu destas virtudes. 


São Francisco, na sua juventude estava longe de ser um manso e humilde porque desejava os louvores da terra. Buscava a glória nas batalhas e tinha horror a leprosos. No entanto, seu coração foi moldando-se às virtudes do céu num caminhar contínuo em imitar Jesus nas suas palavras e gestos.

Outro exemplo de mansidão, encontramos em Santa Teresa de Lisieux, que nos apresenta um verdadeiro desafio com o seu Caminho pela via da infância espiritual…


Também conhecida como Santa Teresinha do Menino Jesus, esta carmelita descalça francesa do séc. XIX, abandonou-se como criança nas mãos de Jesus. Assim escreveu: “Deus quer que me abandone como uma criança.”

Outra das suas frases revela-me um dos seus desejos: “Quero encontrar maneira de ir par ao Céu por um caminhinho muito direito, muito curto.”

E este "caminhinho muito direito e curto" foi construído num espírito manso que aceitava todas as adversidades do dia-a-dia como pequenas maneiras de manifestar o seu amor a Jesus. 

Santa Teresinha escreveu alguns desses segredos de vida que posteriormente foram editados num livro intitulado: “História de uma alma” que aconselho a todos a lerem.

Na simplicidade e num total abandono a Deus, Santa Teresinha efetivamente traçou um caminho curto e direito ao céu usando a mansidão como uma forma simples e humilde de imitar Jesus.

São Francisco e Santa Teresinha do Menino Jesus são provas vivas de que efetivamente os mansos possuem a terra porque a memória das suas vidas não se esgota ao longo do tempo.

Jesus, igualmente manso, inquieta-nos ainda hoje com as suas palavras porque a verdadeira vitória e honra está em servir a Deus.

Ser manso é ser grato a Deus, porque a serenidade do espírito prova o quão forte é a nossa fé em Deus.

Bibliografia:

Frases de Santa teresinha e pormenores da sua vida foram retirados do site http://www.carmelitas.pt/teresinha/petalas.html

Vida de São Francisco consultado no site:

Passagens bíblicas retiradas do site

O significado da palavra manso foi retirado do site www.infopedia.pt/
manso in Dicionário infopédia da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2017. [consult. 2017-02-22 21:33:50]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/manso